A minha família está geograficamente separada há pelo menos uns 8 anos. Metade mora em São Paulo e a outra metade em Curitiba. Depois que a minha mãe se foi, infelizmente, essa distância deixou de ser somente geográfica e todo ano, quando chega a época do Natal, o estresse em família começa. Quem vai pra lá? Quem vem pra cá? Pra quem é mais fácil ir? Quem tem que trabalhar? Quem está sem dinheiro? Quem não está com vontade? Na boa, é um saco!
Todo mundo tem as suas justificativas. Minha irmã do meio que mora em SP está sempre sem dinheiro, a pindaíba dela dura anos e fica complicado gastar com passagem para ela e mais duas crianças. Ok, eu entendo perfeitamente. Meu pai nunca se programa pra nada e em várias ocasiões aceitou ser escalado para fazer plantão durante TODO o feriado das festas. Parece coisa de quem não tem família, não acham? Qualquer coincidência é mera semelhança.
Já do lado de cá eu e a minha irmã mais velha não temos mais um pingo de paciência pra enfrentar 6 horas de estrada, pegar um trânsito infernal na cidade e filas intermináveis pra comprar até uma água, nos esforçarmos para fazer uma ceia mais ou menos decente que o meu pai janta às 9 da noite e vai dormir. E tudo isso numa viagem “bate-volta” porque alguém sempre tem que trabalhar no dia 26 de dezembro e tem que estar em Curitiba à tempo. Isso sem falar no marido que acha um saco ir pra lá e não ter nada pra fazer, além de ficar preso no trânsito, na muvuca do supermercado e peregrinando pela casa dos tios e tias.
Da última vez ainda tivemos o azar de sofrer um acidente na estrada quando voltávamos pra casa que traumatizou a família inteira. Juro, pensei que a gente ia morrer. Não morremos, mas ficamos com um preju considerável além da síncope nervosa e o fato da minha irmã ter ficado sem carro por quase um mês.
Esse ano, para não quebrar a tradição, a história continua a mesma. Quem vai? Quem fica? Quem tá a fim? Quem não está? E com a minha atual situação financeira abalada pela falta de emprego, decidi logo cedo que ficaria inviável o meu deslocamento. Fiz a louca mesmo, falei: quem quiser que venha e será bem recebido, mas eu não saio da minha casa.
Não se trata somente de uma questão financeira. A ferida emocional é imensa. Nesse momento não sou boa companhia pra ninguém. Estou ranzinza, magoada, impaciente e sem vontade de interagir com outros seres humanos. Além disso, estou cansada dessa pressão de “fazer a minha parte”, de “não sabemos mais quantos natais teremos juntos” ou ainda de “minha responsabilidade como filha”. A minha motivação para estar em família no Natal não passa disso: responsabilidade, pressão, fazer a minha parte. Que merda é essa?
E daí que depois de um papo cabeça que a minha querida irmã mais velha teve com o meu pai e em seguida comigo, ela decidiu que, mais uma vez, vai fazer a sua parte, vai cumprir o seu papel de filha, vai fazer um sacrifício para estar perto deles e conta comigo para fazer isso junto com ela. É difícil para mim recusar qualquer pedido da minha irmã. Primeiro porque eu a amo demais e sempre acho que não me custa nada fazer algum favor que esteja ao meu alcance. Em segundo lugar, porque eu tenho um imenso sentimento de gratidão por causa de tudo o que ela já fez por mim e pelo que ela representa hoje para mim: o que restou da minha família. E família é pra isso mesmo, pra estar lá quando a gente precisa.
Mas esse pedido que ela me fez agora, de uma maneira tão profunda, tão cheio de sentimentos de culpa, de vontade sincera de mudar esse nosso mundinho familiar, me deixou numa crise existencial imensa. Como eu disse antes, a minha decisão de não passar o Natal em família não tem a ver somente com a grana que eu não quero gastar por estar desempregada. Tem a ver com o momento em que eu me encontro e com o fato de achar que tá mais do que na hora de mais alguém nessa família fazer a sua parte! Tenho mais alguns dias pra pensar e decidir se embarco nessa. Provavelmente eu acabe cedendo, única e exclusivamente por consideração a ela, e já sabendo que o marido desta vez não vai me acompanhar nessa, ele pediu a minha compreensão e disse que gostaria de ficar em casa. E eu o entendo perfeitamente.