O bichinho do tricô

Tudo começou quando eu ainda era criança e ficava encantada quando via alguém, geralmente mulheres, tricotando. Que coisinha mágica que era aquilo, o movimento das mãos, o sentido da agulha, aquele trocar de lados sem fim e a trama tão perfeita que saía como resultado de tanto mexe-mexe.

Mas como descobrir essa arte? O comum é que as mães e avós ensinem as crianças, assim como minha mãe se esforçou para me ensinar o crochê. Que pena que a minha família não tinha nenhuma tricoteira… Cresci fadada a não saber nunca como tecer um mísero cachecol.

Porém como dizem por aí, sou brasileira e não desisto nunca. Depois de adulta me meti a fazer trabalhos manuais, na verdade, descobri que tinha interesse e também facilidade para fazer pequenos projetos artesanais e me lembrei das mágicas agulhas de tricô.

Oras, se era possível aprender a fazer artesanato pela internet, por que não seria possível encontrar algum tutorial de como tricotar? E foi assim que eu, por meio do Google e do YouTube, aprendi a tricotar! Comprei duas agulhas, alguns novelos de lã e seguia as dicas dos vídeos e sites que encontrava.

Não sou uma exímia tricoteira, mas consigo exibir por aí alguns cachecóis, polainas e gorros, especialmente para a Jamile que adora! Para falar bem a verdade, o tricô é o meu “guilty pleasure”, ou seja, aquela atividade que eu curto, mas tenho vergonha de admitir.

Tem sido uma boa terapia para a minha ansiedade, pois enquanto estou tricotando, minha mente fica focada em cada ponto, no deslizar das agulhas, na trama que vai saindo… Apesar de ser cansativo, é relaxante e não tem coisa mais gostosa do que terminar um trabalhinho e saber que vou poder usar algo feito pelas minhas próprias mãos.

Experimentem, gente, tricô é só amor! ;o)

Eu tenho transtorno de ansiedade

Sim, gente, eu tenho. E não tenho vergonha de assumir, não. Como eu costumo dizer, ansiosa eu sempre fui e sentia os efeitos desse mal desde muito jovem. Quando eu tinha uma prova importante ou uma apresentação, eu sonhava que chegava atrasada, perdia os materiais, não conseguia entrar na escola, só coisas angustiantes.

Na idade adulta isso passou a acontecer antes das entrevistas de emprego. Era batata! Na noite anterior à uma entrevista ou dinâmica de grupo eu tinha sonhos terríveis onde tudo dava errado. Lá ia eu com aquela cara de quem não dormiu bem enfrentar o entrevistador…

Quando comecei a crescer profissionalmente foi que a coisa começou a caminhar para o lado negro da força e eu conheci o que era ter insônia. Durante muitos anos tive crises de insônia de madrugada. Ia pra cama cedo, afinal estava cansada de não dormir bem e lá pelas 3 ou 4 da manhã eu simplesmente despertava. Puf! Simples assim!

E começava o meu martírio… Tudo vinha na cabeça, os prazos a cumprir, os relatórios, as coisas que eu não tinha finalizado no dia anterior, os compromissos daquele dia, as campanhas, as reuniões, os horários, os prazos e prazos e prazos…

Segurei a onda por um tempo, mudei de emprego algumas vezes, sempre procurando uma alternativa à essa pressão profissional que não me fazia bem. Tive uma filha. Fodeu! Sim, gente, depois da chegada de Jamile a coisa desandou novamente.

Mudei a minha vida profissional, mas não mudei meus hábitos. Com o trabalho fixo meio período comecei a encher a agenda de projetos, assumi responsabilidades, parcerias e me esgotei. No final do ano passado tive uma crise. Eu passava noites inteiras sem dormir. Noite sim, noite não. Estava exausta e não dava conta de metade do que eu tinha me comprometido a fazer. Pior: não estava dedicando meu tempo a quem mais precisava dele, a minha filha.

Parei, refleti, pedi socorro. Tracei um plano, fui largando um projeto aqui, uma parceria ali, reduzi bastante a minha produção freelancer por uns dois meses e procurei um médico. Desde janeiro desse ano estou tomando um ansiolítico e comecei a fazer ioga duas vezes por semana.

2016 tem sido o ano da minha desaceleração. E estou me sentindo muito melhor agora!

Uma história de todo dia

Hoje eu vou contar uma fábula. Era uma vez uma jovem meio desmiolada que gostava muito de balada e de namorar e de aproveitar o que a vida tinha de bom a oferecer. Ela tinha pais muito amorosos, porém exigentes que garantiram que ela teria uma boa educação até a faculdade.

Um belo dia, essa jovem se envolveu com um rapaz mais novo e ficou grávida. O rapaz não quis assumir a responsabilidade e ela foi mãe solteira aos 24 anos. O bebê foi uma surpresa para todos os familiares, mas foi muito bem recebido e amado.

Quando ele tinha mais ou menos 2 anos de idade, a mãe se casou com um amor do passado que surgiu e se aproximou novamente. Na época, esse rapaz se disse apaixonado pelo pequeno também e o assumiu como seu próprio filho.

Infelizmente essa não é uma história de final feliz. O casamento foi um tanto conturbado, o rapaz se mostrou menos paciente e amoroso ao longo do relacionamento e a jovem, como eu disse antes, era um tanto desmiolada, avoada, irresponsável. Antes de finalmente se separarem e seguirem cada um para o seu lado, tiveram uma filha juntos.

A separação foi cheia de percalços, brigas, desentendimentos, ambos tinham mais interesse em atingir um ao outro do que resguardar as crianças desse cenário de guerra. Houve muita alienação parental dos dois lados.

Como todo bom pai separado, ele foi viver a vidinha dele, comprovou na justiça que era autônomo, recebia um valor irrisório de pró-labore e, por isso, só poderia pagar uma pensão ainda mais irrisória. Enquanto a mãe ralava para dar conta de tudo, recebendo salário ruim e pensão pior ainda, o ex esbanjava no Facebook viagem para o exterior, apartamento novo em bairro nobre e encantava as crianças com tudo o que dava a elas nos poucos dias em que ficava com os dois.

Em determinado momento da vida, pai e mãe, ex-mulher e ex-marido, resolveram que seria bom a menina ir morar com o pai e o mais velho ficaria com a mãe já que ele já era adolescente e já estava começando a seguir seu próprio rumo. (Ou talvez tenha sido assim porque o mais velho não era filho “de verdade” desse ex… vai saber, não é.)

A menina então passou a ter acesso a uma ótima escola particular, uma vida regrada, confortável, cachorrinho de presente, viagens, toda uma estrutura familiar de dar inveja. E o filho mais velho? Batendo cabeça com a mãe que, como eu disse, continua sendo meio desmiolada…

Hoje, o ex segue sua vidinha sendo ovacionado em redes sociais, “o pai que também é mãe”, o exemplo de homem, aquele que faria o que nenhum homem costuma fazer. A mãe com certeza é tida como uma desvairada, que não ama a filha, uma perdida.

Ah, você já deve ter visto esse filme, né. A questão é que não se trata apenas de história. A jovem é a minha irmã do meio, as crianças são meus sobrinhos. E o ex, ah, desse eu tenho nojo.

Por que a representatividade é importante?

Depois de mais de 50 anos, a empresa que fabrica a Barbie vai produzir bonecas negras, baixinhas, gordinhas e de cabelo crespo. E eu já comecei a perceber alguns comerciais com casais inter-raciais, família negras sem estereótipos… Pequenas vitórias num longo caminho.

Sempre que algo nesse sentido muda e é evidenciado, tem gente que sai por aí dizendo que não tem nada a ver, que é exagero, que boneca não traumatiza criança nenhuma, bla bla bla bla…

Vocês se lembram do lápis “cor de pele”? Quando eu era criança e o meu sonho de consumo era ter uma caixa de lápis de cor Faber Castell com 36 cores (acho que devo ter tido um desses uma vez na vida…), a gente sempre que ia colorir o corpo de alguém, rosto, pernas, braços, etc, era lei usar o tal do lápis “cor de pele”.

Esse lápis nada mais era do que um cor de rosa meio salmão clarinho. E era chamado de cor de pele. Cor de pele de gente branca, né. Agora o pior de tudo é ver que isso existe até hoje. Dia desses, Jamile fez exatamente a mesma coisa que eu fazia quando eu era criança: foi pintar o rosto da figura de uma criança com o tal do lápis cor de pele.

Emudeci, parei, pensei, cocei a cabeça e disse pra ela que aquela cor não tem nada a ver com cor de pele, pois existem peles de diversas cores. Existe pele branca, rosa (como a cor do lápis), pele marronzinha (como a da própria Jamile) e pele negra da cor do lápis preto. Portanto, qualquer um daqueles lápis podem ser chamados de cor de pele, não é mesmo?

Não sei se ela entendeu bem, se me achou uma doida, uma chata que não entende nada de cores… Enfim, ela continuou pintando o desenho dela com aquele lápis rosado e seguimos a vida.

Agora pulamos para outra cena. Marido parou num posto para abastecer o carro e ganhou uns gibis que ele levou pra Jamile. Ela ficou super feliz com o presentinho e veio me mostrar pedindo pra eu ler a história pra ela.

Era um menino que chegava em casa da escola e falava pra mãe que ele tinha decidido se tornar cozinheiro quando crescesse e para ser cozinheiro ele não precisava estudar, então ele tinha resolvido não ir mais pra escola. A mãe então, muito esperta, foi mostrando pra ele que para ser um bom cozinheiro ele precisaria saber ler a receita, entender de pesos e medidas matemáticas, estudar geografia para saber de onde os ingredientes vinham, ou seja, era preciso estudar sim.

Assim que eu abri a primeira página, Jamile apontou para o desenho do menino e disse: olha, mãe, ele é marronzinho que nem eu!

Tá vendo como é importante que as crianças se identifiquem nas histórias, nos brinquedos, nas novelas, nos filmes, na vida? Uma criança que não se vê representada em nenhum lugar, se sente excluída, diferente, feia. Representatividade está completamente ligado à auto-estima e ao lugar que essa criança ocupa no mundo.

Aqui a gente vai de ônibus

Aqui em casa o nosso esquema durante a semana é o seguinte: eu deixo Jamile na escola e marido vai buscar. Por diversos motivos o nosso carro fica com ele e eu uso o transporte coletivo. Ele tem garagem no prédio do escritório sem custo, ele sai cedo de casa e ele volta na hora do rush com a pequena, então é claro que fica melhor assim.

Por outro lado eu acho muito interessante que Jamile viva a experiência de pegar ônibus e de andar pela rua a pé. Acho que é uma maneira de ensinar para ela muitas coisas sem fazer muito esforço, sabe como?

Eu usei coletivo praticamente a minha vida toda, minha família NUNCA teve carro, gente. Sim, isso é possível e isso acontece, tá. E pior, morando a vida toda em São Paulo, num bairro lá no fim do mundo. Quem nunca dependeu de ônibus e metrô em São Paulo não sabe o que é viver perigosamente… kkkkk

Comecei a dirigir quando me mudei para Curitiba com mais de 20 anos de idade e, mesmo assim, só pegava no volante do carro da minha irmã quando era realmente necessário (meu ex-cunhado era do tipo apaixonado pelo carro). Meu primeiro carro foi comprado quando eu fui morar com o marido, então até hoje eu não vejo problema nenhum se eu tiver que fazer qualquer coisa usando ônibus. Especialmente aqui em Curitiba que os transportes coletivos são mil vezes mais organizados.

A primeira coisa que Jamile já sabe é que temos horário para sair de casa. E se a gente atrasar por qualquer motivo, (terminar de pintar um desenho pra levar pra professora, assistir mais um pouquinho de televisão, brincar um pouco mais com o gato ou um cocô que resolveu aparecer justo nessa hora) a gente perde o ônibus e precisa ficar lá no ponto esperando o próximo.

Já fiz a criatura sair correndo pra pegar o busão, gente… E ela se matou de dar risada depois que a gente entrou nele!

Aqui em Curitiba, as pessoas formam uma fila no ponto por ordem de chegada, como se fosse no ponto final do ônibus. Legal, né? Quando vim morar aqui eu ficava chocada com tanta civilidade. Em São Paulo é cada um por si e Deus por todos. Então eu mostro pra Jamile que é preciso respeitar a ordem de chegada. A gente só entra primeiro no ônibus se a gente chegar primeiro no ponto. E quando isso acontece ela fica super feliz… rs

Além disso, mesmo que exista essa fila por ordem de chegada, os velhinhos têm prioridade. Então eu mostro pra ela que as pessoas mais velhas ou com alguma necessidade especial podem entrar primeiro. Ah e existem bancos específicos para essas pessoas também, que a gente só usa quando não tem ninguém assim no ônibus. Se uma pessoa assim entrar, a gente levanta e dá o lugar.

Um dia encontramos uma moça deficiente visual e eu a ajudei a atravessar a rua e entrar no coletivo. Jamile perguntou por que eu fiz isso e eu expliquei que é legal ajudar pessoas que precisam. Isso deixa todo mundo feliz e não custa nada.

Ela também já aprendeu quando o nosso destino se aproxima e já vai se ajeitando para apertar o botão que indica que a gente vai descer. Andar pela rua também ensina a ter cuidado quando atravessar, a ter contato com pessoas estranhas, respeitar o espaço dos outros, cuidar de si mesma, entra outras coisinhas do dia a dia.

Ah e ela também já sabe que não dá pra levar todos os brinquedos do mundo no dia do brinquedo da escola, pois fica difícil carregar tudo isso no ônibus.

No começo ela adorava andar de ônibus, hoje em dia ela fica mais feliz quando o papai almoça em casa e dá uma carona pra gente. :o)

 

 

Éramos seis

Esse blog começou em 2010. Por meio dele eu fiz o inimaginável: eu conheci pessoas e fiz amigos pela internet! Eu conheci mulheres com histórias parecidas com a minha, pessoas de lugares diferentes que se identificaram com as minhas angústias, dúvidas e dificuldades.

Éramos seis: Bibiana, Dalila, Anelise, Vivian, Patrícia e eu. Todas com uma vontade em comum: nos tornarmos mães. Todas sofrendo por não conseguir exercer a maternidade, indignadas com os desmandos da vida, com os projetos que não se concretizavam.

Seis anos se passaram e hoje, que delícia que é poder dizer que todas nós chegamos lá! Algumas são mães biológicas, outras são mães do coração, assim como eu. Todas mães!

Nossas vidas agora são adoçadas por Marina, Henrique, Vivi, Laurinha, Nicolas, Jamile…e mais dois pequenos que estão vindo completar essa turma. Meninas, nós somos foda, hein!

P.S.: Depois de terminar o texto me lembrei também da Deborah! Então, na verdade, éramos sete! E tem mais dois aí na conta da criançada… kkkkk

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos…

Cena 1: Então, eu sou cacheada. Sempre fui. Nasci cacheada. E sim, eu queria ser lisa e loura como a Barbie e como todas as bonecas e influências recebidas na minha infância durante os anos 80/90. Para minha sorte, no meu tempo o acesso a produtos de alisamento, escova progressiva, formol e o cacete a quatro era muito mais complicado. Então em determinado momento da vida, ali em meados da adolescência, começo da vida adulta, eu cheguei à conclusão que o meu cabelo era legal assim mesmo. Ou pelo menos eu tinha que engolir ele desse jeito. E o que eu fiz foi encontrar uma maneira de deixá-lo com uma boa aparência cacheada usando produtos específicos, um corte correto, tudo bem prático.

Cena 2: Minha filha é cacheada. Lindos cachinhos castanho-escuros que eu amo de paixão e cuido igualzinho eu trato da minha própria cabeleira. Claro que assim fica fácil, eu sei o que fazer com o cabelinho dela, sei como tratar, como pentear, como enfeitar. E pra mim foi um grande presente que ela tenha essa característica física igual a mim.

Mas é difícil ser cacheada num mundo que ainda é comandado por Barbies lisas e loiras e pessoas sem noção. Já ouvi muitos elogios ao cabelinho da Jamile pelas ruas, mas também já ouvi comentários desnecessários que eu queria muito deletar da minha memória.

“Que lindo, mas deve dar um trabalho, né” – Não, gente, não dá trabalhooooo! A gente usa um shampoo e um condicionador, de preferência próprio para cabelos cacheados, não precisa lavar todos os dias, pois cabelo cacheado costuma ser ressecado e depois passa um creminho desembaraçante, ou um leave-in ativador de cachos. E sai por aí feliz e contente! Não tem que usar secador, não tem que fazer mais nada. Molha, penteia, passa creminho e vai bater perna. Ponto negativo: não dá pra pentear cabelo cacheado seco, pois machuca, dói e destrói com o cabelo.

“Ah, é lindo, mas ela com certeza vai querer alisar quando crescer” – Eu espero, do fundo do meu coração, que isso não aconteça. E praticamente todos os dias da nossa vidinha eu elogio os cachinhos, mostro como é legal ter o cabelinho assim, como eu e ela somos parecidas por causa desse tipo de cabelo.

Jamile tem 4 anos, minha gente. Apenas 4 anos. E já começou a apresentar alguns discursos que mostram como é difícil ser diferente dos estereótipos. Um dia ela me perguntou por que ela é diferente de todo mundo. Quem é todo mundo? As amiguinhas da escola. E onde ela é diferente? No cabelo. Ela queria ter cabelo beeeem comprido e liso, como elas.

E isso aconteceu mesmo com todo o discurso positivo que eu ofereço em casa, todos os exemplos saudáveis que eu tento passar e todo o esforço que eu tenho para a construção da auto-estima dela. Mesmo assim, ela olha ao seu redor e vê cabelos longos, lisos e loiros sendo considerados os mais lindos. E se sente feia. Ela me perguntou se ela é bonita… E eu internamente chorei.

Vamos seguir na luta, não há nada mais que eu possa fazer. Compro bonecas morenas, mostro referências cacheadas everywhere, elogio, elogio, elogio. E você que me lê, por favor, da próxima vez que nos encontrar, elogia também! E não diz que ela vai querer alisar quando crescer, tá. Essa mãe agradece.