Vamos falar sobre sexo?

Escuta, vamos falar sobre sexo? Obaaaa, então vamos! Eu venho de uma família bem tradicional onde sexo sempre foi tabu. Lá na minha casa não se falava abertamente sobre sexualidade, na verdade, não se tocava no assunto de jeito nenhum. Era como se sexo não existisse. A gente sabia que existia, mas não falava sobre isso.

Minha mãe tinha uns conceitos muito bem definidos sobre sexualidade e sobre o que isso representava: problema. Eu cresci com uma noção bem torta sobre o assunto. Era feio e vulgar ser sensual, era um crime ter desejo sexual, suas partes íntimas deviam ser guardadas a sete chaves ou você ficaria falada, seria chamada de nomes horríveis e cairia em desgraça. E olha que eu nasci no final dos anos 70 e começo dos 80.

Quando comecei a crescer e me desenvolver, é óbvio e natural que venha a curiosidade pelo namoro, beijo, corpo, sexo. E eu morria de vergonha disso, tinha vergonha de ser sexuada, pois sentia os olhos da minha mãe me julgando.

Quando adolescente, não podia usar roupas que fossem provocantes, não podia usar maquiagem, não podia usar esmalte escuro. Não podia nada. Ou isso tudo seria interpretado como falta de decoro, moças decentes não fazem essas coisas. Moças decentes se cuidam para ficar limpinhas, mas não são vaidosas.

O que isso fez por mim? Dificuldades para conhecer meu corpo, para lidar com a minha sexualidade, muitos entraves nesse item e muitos problemas de entendimento com o sexo oposto. E foi aí que eu fiquei pensando por qual motivo homens e mulheres têm uma noção tão diferente sobre sexo.

Vamos analisar como é que a nossa sociedade vem educando meninos e meninas sobre o assunto. Meninos são estimulados a falar sobre sexo desde que nascem. É um orgulho falar dos genitais masculinos, “tem o saco roxo”, “é bem dotado”, ninguém tem vergonha de falar de pinto, já notaram?

O menino cresce e desde cedo é estimulado a ter desejo sexual, a ter namoradinhas na creche, a olhar e cobiçar as mulheres. Eu tenho dois sobrinhos, gente, e me lembro que o pai de um deles mostrava fotos de catálogos de lingerie pro menino e dizia “olha, filho, a gostosona”. Detalhe: meu sobrinho mal sabia falar, ele devia ter uns 2 anos.

A medida que o menino cresce tem liberdade total para lidar com seu corpo, é normal se tocar, se masturbar, acordar de barraca armada, é saudável. Tem até a obrigação de deixar de ser virgem! Não se deu bem com as amiguinhas? Então ia pra um puteiro perder a virgindade, questão de honra! E assim começa a relação dos homens com o sexo, de maneira bem objetificada, seu prazer em primeiro lugar, seu desejo é sempre uma ordem.

E, claro, tem a pornografia. Meninos também são estimulados desde sempre a ver pornografia, mas não sabe que pornografia não é sexo. Eles acham que é, têm certeza absoluta que todo mulher adora transar daquele jeito, faz aquelas caras e bocas, aquelas posições, aquelas situações. E é isso que eles levam para os relacionamentos. A esposa tem que ser uma dama na sociedade e uma puta na cama.

Voltamos então para a criação das mulheres. Ao contrário dos meninos, as meninas não são exibidas entre os familiares sem roupa. Não, menina tem que estar bem protegida, bem coberta, bem escondida. Todo mundo fala de pinto, mas ninguém fala com tranquilidade sobre vagina. Eu hein, coisa feia.

Menina não pode se tocar, não pode namorar, não pode ter desejo sexual, tem que ser recatada, tem que se guardar para o amor da sua vida, tem que ser virgem, não pode ficar se agarrando com qualquer um por aí. Menina não vê pornografia, é como se sexo não existisse, ninguém explica como é que vai rolar, ninguém estimula menina a sair pegando geral, é feio, fica falada.

Menina cresce ouvindo piadinhas de que o pai vai assustar todos os namoradinhos, que ela é bonita demais e vai dar trabalho, que só vai poder namorar depois dos 30 anos. Ela tem que se valorizar, se dar ao respeito, ser durona, não liberar geral.

Menina lê romances onde a primeira vez vai ser mágica, o parceiro vai ser carinhoso, vai tratá-la com devoção e respeito. Menino vê pornografia e tem em mente que sexo bom é assim. Precisa falar mais nada, né.

Claro que a gente cresce, descobre que as coisas são diferentes do que pregaram os nossos pais, do que a sociedade impõe, aprende mais sobre sexo, conhece o próprio corpo, descobre o que gosta e o que não gosta. Mas o estrago já está feito. A falha de comunicação com o parceiro parece que vai ser eterna. Vamos pensar sobre isso e rever a educação sexual das crianças? Eu já comecei aqui na minha casa.

Anúncios

Comenta aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: