Diálogo

– Mãe, o que é “pariu”?

– Hein????

– O que significa “pariu”?

Demorei alguns minutos pensando em como responder e já sabendo que isso não ia terminar bem…

– Pariu é quando um bebê nasce, quando uma mulher tem um filho e ele sai da barriga dela.

– Hummm…. E o que é “puta”? Puta que pariu?

Eu sabia que era justamente aí que a gente ia chegar. Malditos palavrões que eu tento não falar, mas sempre escapam. Pensei mais um pouco e respondi:

– É uma mulher muito malvada que pariu uma criança.

– Ahhh… E quando o bebê vem de fora da barriga?

– Como assim, Jamile?

– Quando a pessoa compra um bebê… que nem foi comigo, você foi lá e me pegou…

– Nãooooo, filha, ninguém pode comprar um bebê!!!

Fiz uma cara exagerada de desespero e ela começou a rir. Continuei a explicação:

– Quando um bebê entra numa família que nem você entrou, a gente fala que ele foi adotado. Você foi adotada, ok?

– Ahhhh, tá bom.

Essa  minha filha é mesmo uma figura…

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Eu e a magrela

Quando eu era solteira, houve um tempo em que eu me encantei por andar de bicicleta. Comprei uma de segunda mão, não sabia nem trocar as marchas, mas resolvi que ia aprender a usar a bike e fazer dela o meu passatempo.

Na época não se falava tanto em sustentabilidade, ou melhor, essa não era uma preocupação que rondasse muito os meus pensamentos, então eu usava a bicicleta só pra passear nos fins de semana. Eu nem sequer cogitava a possibilidade de fazer dela um meio de transporte!

Aí eu casei. E como todo ser humano que se preze, estava bem feliz com a minha vidinha a dois comendo, bebendo, dormindo e vendo TV para todo o sempre. A bicicleta foi aposentada e depois de anos juntando pó e ocupando espaço, me desfiz dela.

Acho que faz bem uns 10 anos (no mínimo) que eu não ando de bicicleta. E acabei de comprar uma. Elétrica. Pois é, eu sou meio doida mesmo. Na verdade, existem alguns motivos que me fizeram investir na magrela novamente:

  • Engordei uns 20kg nos últimos 2 anos e estou cada vez mais sedentária
  • Recomendação médica para me ajudar não só a perder peso, mas também a controlar a minha ansiedade
  • Atualmente eu trabalho a menos de 5km de distância da minha casa
  • Estou gastando uma graninha considerável com Uber e desconto em folha de pagamento de vale transporte para usar ônibus

Esses motivos, aliados ao fato de que eu detesto fazer academia e tenho pavor de puxar ferro, me fizeram ter vontade de voltar a pedalar. Porém, para quem não sabe, eu moro no topo de uma subida que deve ter uns 1.000 graus de inclinação (mentira, estou exagerando, não chega a tanto, deve ser só uns 950 graus…), e isso sempre me desmotivou a fazer qualquer tipo de exercício físico. Por isso pensei na bike elétrica.

Hoje foi o dia da estreia! Não consegui nem dormir direito, ansiosa, aflita, com medo de arregar no meio do caminho e não dar conta do recado. Saí de casa 10 minutos mais cedo por precaução e levei 20 minutos, no total, entre a saída da minha casa, percorrer os 3,8km, empurrar a bicicleta numa subida feladamãe, montar na magrela de novo, entrar na empresa, amarrar a bichinha no bicicletário e finalmente entrar na minha estação de trabalho.

Pois é, a bike é elétrica e eu pensei que ela funcionasse como uma espécie de motocicleta onde eu iria tranquilamente vencer as subidas da vida sem muito esforço. Ledo engano. O motor dá um help, mas se não pedalar, não existe mágica, você não sai do lugar.

Não morri, mas cheguei no trabalho suada, sem fôlego, com as pernas trêmulas. E eram 5h30 da manhã. Venci a primeira etapa, mas confesso que passei todo o expediente morrendo de medo do caminho de volta e da tal ladeira desgramada me esperando.

A volta não foi assim tão terrível como eu imaginei. Realmente não tive perna suficiente para subir a ladeira, empurrei a bike até o topo e isso me fez gastar 10 minutos a mais do que a ida. No total deu 50 minutos de exercício físico, acho que tá bom pra quem não faz absolutamente nada há, pelo menos, uns 2 anos.

Resultado da minha estreia: yes, I can! O corpitcho ficou cheio de endorfina, passei o dia bem, sem dores musculares absurdas, felizona por ter conseguido dar o pontapé inicial, porém já de cara furei o pneu da magrela. Sim, os astros devem estar de brincadeira comigo… Pausa para remendar o pneu e seguir pedalando em 2017.

Vamos falar de feminismo?

O feminismo e a discussão sobre a importância de repensar o papel da mulher na sociedade nunca

esteve tão em alta. Porém, tudo o que dá ibope, tudo o que fica à tona nos meios de comunicação

de massa gera ruídos, desentendimentos, abordagens equivocadas. Isso é lei. Quando se fala

demais sobre um assunto, tenha certeza de que as polêmicas e os conflitos ideológicos vão surgir

pra bagunçar o coreto.

Outro fato: discussões e pontos de vista diferenciados são importantes para enriquecer o tema e

fazer o povo pensar, num mundo ideal. No nosso mundinho de egos exacerbados e excesso de

verdades universais criadas por grandes pensadores de internet, o que a gente vê é um ódio

desmedido sendo destilado em redes sociais. E eu me pergunto: quando é que o ser humano vai

amadurecer?

Com o feminismo não é diferente. A partir do momento que despertou-se essa consciência de

encarar a forma como a mulher é tratada na sociedade de uma maneira diferente, tudo virou

mimimi, todo mundo é “feminazi”, tudo é exagero de “lésbicas mal comidas”.

Inclusive, me surgiu a ideia de escrever sobre esse assunto, justamente por conta de uma conversa

que tive com meu marido amado, também cheio de ideias equivocadas sobre o tema e que

começou a questionar a minha ideologia.

Portanto, vamos lá. Vamos falar de feminismo sob a minha ótica. O feminismo não é uma forma

de machismo reverso e, acima de tudo, não é um movimento que prega o ódio aos homens. O

feminismo deve ser uma luta para que as mulheres tenham seus direitos como um todo garantidos

na sociedade.

Quando se fala em “igualdade entre os gêneros” é que começa o samba do criolo doido. Ah, mas

como assim? Então o que as feministas querem é imitar o comportamento masculino, fazer

serviços pesados, ir pra guerra, beber até cair, ser promíscuas, fazer “coisa de homem”?

Não gente, ninguém quer imitar ninguém. Homens e mulheres são fisicamente e psicologicamente

diferentes e nada no mundo vai mudar isso. O que queremos é que uma mulher não seja

discriminada em praticamente todos os âmbitos da vida pelo simples fato de ter uma vagina e não

um pênis.

E eu sei que é difícil mesmo para alguns homens conseguirem internalizar essa equação (embora

seja um raciocínio bem simples), pois o machismo está absurdamente arraigado na nossa cultura.

Os meninos crescem, muitas vezes, num realidade familiar em que os homens são servidos e

reverenciados pelas mulheres da casa. Além disso, a educação sexual para o meninos tem uma

abordagem completamente diferente do que para as meninas.

É aquela velha realidade que todo mundo está cansado de saber: os meninos são criados para

serem “pegadores” e as meninas para serem belas, recatadas e do lar. Então eu entendo, sabe, que

um homem não consiga mesmo compreender muito bem como é opressor crescer desse jeito, sob

essa regra universal, já que pra ele tudo sempre foi diferente.

Mas então as feministas querem ser “pegadoras”? Sim e não. O que queremos é ter o direito de

sermos “pegadoras” (se essa for a nossa vontade) sem sermos tachadas de putas, galinhas,

indecentes e etc. Você quer sair na balada e pegar geral, fazer sexo no primeiro encontro, beijar

vários na mesma noite, beber todas? Então se joga, fia. Isso não significa que você é pior que

ninguém ou que está pedindo pra ser atacada e estuprada. Ah, mas essa não é a sua vibe, você não

curte balada, não é de beber muito, prefere ficar de boas e esperar o príncipe encantado. Tá bom

também. Cada cabeça uma sentença.

Aí me perguntaram again: mas esse tipo de comportamento é mais comum nos homens, então as

feministas estão sim querendo imitar os homens e você acha isso legal. Mais uma vez eu digo: o

que o movimento prega não é imitar homens, tá. Aquilo que eu falei no parágrafo anterior serve

para os homens também. Você, homem, quer sair na night e pegar geral? Ok, não tem problema,

não. Aliás, nunca teve, né meu bem… Mas se você, homem, não gosta de badalação, prefere se

entregar a um relacionamento sério, tá tudo certo também.

Ah, mas o que aparece na mídia é um bando de mulher brigando com homem, peitando homem,

mostrando os peitos, etc. É isso que é ser feminista? Aqui cabem duas considerações dentro do

meu ponto de vista. Primeiramente, há tempos que não se deve confiar cegamente no que é

divulgado pela grande mídia. Seja criterioso com as notícias que você lê, tenha uma postura crítica,

procure entender toda a questão e isso vale não só quando se fala em feminismo, mas para tudo na

vida. E, em segundo lugar, tem gente equivocada e idiota em qualquer lugar, até mesmo nas

minorias.

Outra verdade (essa sim universal) que deve ser absorvida: ser idiota independe de credo, raça,

gênero ou posição social. Quem é idiota, simplesmente é. #ficaadica

Os desafios da adoção

Quando se fala sobre adoção, um tema recorrente é a questão do perfil e do preconceito. Desde sempre este assunto está presente. Por que as contas não batem? Por que existem tantas crianças precisando de um lar e tantos adotantes habilitados e a fila não anda?

Há quem grite a plenos pulmões que os adotantes são seres abomináveis, preconceituoso que idealizam a criança, que querem adotar um filho com características físicas similares às do casal e sem problemas de saúde. Sim, a culpa é toda deles! Esses lobos em pele de cordeiro! (ironia, tá gente)

Eu fico em cima do muro quando o assunto é “encontrar o grande culpado” da burocracia da adoção. Fico em cima do muro porque, por um lado, é muito fácil jogar toda a culpa nos adotantes sem esmiuçar o que as instituições públicas deixam de fazer. Falta gente nas Varas de Infância, falta gente trabalhando e, em muitos casos, falta gente comprometida. Ou seja, quem está lá muitas vezes tá nem aí mesmo. Não é uma generalização, existe sim gente do bem nesse meio, mas existe gente que caga e anda.

As crianças crescem nos abrigos não única e exclusivamente porque os habilitados são animais preconceituosos que possuem restrição com relação à raça, cor da pele, doenças. Crianças crescem nos abrigos também porque não é feito o acompanhamento a cada seis meses para verificar se existe possibilidade de reinserção na família biológica ou se o caminho mais saudável para ela é disponibilizá-la para adoção. Diz a lei que uma criança não pode ficar institucionalizada, ou seja, abrigada por mais de 2 anos. Será que esse direito é sempre garantido?

Existem adotantes preconceituosos? Sim, existem, claro. Na verdade, existe uma linha tênue sobre o que pode ser considerado preconceito, na minha opinião. É uma questão bem delicada essa…A adoção não pode ser motivado por um ato de bondade, ou seja, por vontade de fazer o bem, de fazer caridade. E, apesar de muitas vezes a adoção ser motivada pela impossibilidade de gerar um filho biológico (esse foi o meu caso), ela também não pode ser motivada por uma frustração nesse sentido. A principal motivação de quem adota deve ser a de formar uma família e ponto final.

Mas para que esse processo dê certo, é preciso ser muito sincero consigo mesmo, com seus limites e com suas expectativas. Vou falar sobre mim, gente. Dentro das minhas expectativas eu queria uma criança de 1 a 3 anos de idade. Embora eu não tivesse o sonho de adotar um bebêzinho, eu não estava preparada psicologicamente para encarar uma adoção tardia. Esse era um dos meus limites. O meu segundo limite era com relação aos problemas de saúde: eu não estava preparada para adotar uma criança com necessidades especiais.

Sou preconceituosa por conta disso? Por não estar preparada para adotar uma criança com 8 anos ou com paralisia cerebral? Faço parte da escória da humanidade? Reflitam…

Porém, a grande questão abordada quando fala-se sobre adotantes preconceituosos é no tocante à raça, à cor da pele. Esse foi um detalhe que realmente nunca me incomodou. Venho de uma família miscigenada e meu marido também. Talvez isso tenha facilitado o fato de estarmos aberto a uma criança negra, parda, cinza, amarela? Pode ser… Mas conheço adotantes que não possuem raízes negras na família e que não tinham restrições nesse sentido. Vai de cada um, essa é a verdade.

Quando as pessoas justificam seu preconceito racial elas geralmente dizem que têm medo de fazer a criança sofrer. Afinal, um casal loiro de olhos claros, ou um casal de pele clara, andando por aí com uma criança negra e chamando-a de filho(a) vai chamar bastante atenção. E vai despertar a curiosidade alheia e vai ter que responder perguntas desagradáveis ou vai ter que encarar olhares inquisidores ao seu redor. E isso incomoda a todos.

Será que incomoda a todos? Será que é prejudicial pra essa criança? Quando escuto isso me vem em mente uma coisa: falta de aceitação da adoção como algo normal. É óbvio que ver um casal branco, loiro, enfim chamando uma criança negra de filho(a) vai chamar atenção. E por que haveria de existir algum desconforto nisso? Em responder perguntas? Em evidenciar que a sua família foi formada de uma maneira diferente?

Ele é seu filho mesmo? Sim, ele é. Mas ele é filho de outro pai? Não, ele é nosso filho adotivo. E aí existem vários desdobramentos possíveis. Existem pessoas que vão focar na questão da adoção, que coisa linda, que magnífico, que ato maravilhoso, como foi, demorou, é difícil adotar? E aí eu falo novamente: por que seria algum incômodo falar sobre isso? Sobre o processo de adoção?

Um outro caminho seria você simplesmente dizer que nada disso interessa a quem pergunta. Afinal de contas, ninguém tem nada a ver com a sua vida, não é verdade? Ele é seu filho mesmo? Sim, ele é! Mas é filho de outro pai? Ah, eu acho que você está querendo saber demais, viu. Não tenho intimidade com você para falar sobre a minha família. E segue a vida.

Uma grande amiga minha levou a filha dela (adotiva e negra) ao médico. Encontrou um paspalho que perguntou por que ela era “assim”. Assim como? Assim, morena (para não dizer negra) já que a mãe era branca. A mãe sabiamente respondeu: porque ela nasceu assim. Acabou a história.

Outro ponto que eu quero falar, seguindo essa linha de raciocínio é que, tenham em mente que os desafios das perguntas e das situações não termina somente quando a questão da cor da pele está resolvida. Ou seja, ter um filho adotivo parecido com você fisicamente não significa que os desafios acabaram.

Toda vez que você levar seu filho ao médico, vai ter que falar sobre isso, pois em muitos casos a gente não tem um histórico muito claro da saúde dele. A gente não sabe nada sobre as doenças familiares, sobre qualquer herança genética. E aí, vamos fingir que nada está acontecendo? Não tem como.

É preciso pensar também nas atividades escolares. Em algum momento vai ter alguma questão que envolve a família, uma foto sua quando era bebê, uma foto da mamãe grávida… E isso você vai precisar enfrentar com elegância, com amor, com tranquilidade. Afinal, a história do seu filho e de como vocês se tornaram uma família também é uma história muito bonita de se compartilhar.

Por que seria algum incômodo abordar isso tudo? Pense que a nossa sociedade não sabe como lidar com a adoção de maneira geral e não somente quando se depara com uma família inter-racial. Há quem fale que você foi muito corajosa, há quem diga que jamais faria isso, que nunca conseguiria amar um filho de outra pessoa. E esse tipo de posicionamento independe de cor da pele. Na verdade, quando a criança é loira de olhos claros, talvez as pessoas sintam até pena e digam “como é que alguém pode abandonar essa criança tão bonita?”

A sociedade precisa ser educada sobre a adoção e esse papel é nosso, pais adotivos, quer você queira, quer não. E fazer isso, educar a sociedade, na minha opinião não deve ser visto como um incômodo, mas como a oportunidade de construir um mundo melhor para os nosso filhos.

Então, se você está se preparando para adotar, se já está habilitado, qualquer que seja a etapa onde você se encontre, pense sobre isso com carinho e se prepare para viver uma vida familiar diferente desde o início sendo que isso não é nenhum demérito. Pelo contrário, é um papel importante que nós estamos exercendo.

O bichinho do tricô

Tudo começou quando eu ainda era criança e ficava encantada quando via alguém, geralmente mulheres, tricotando. Que coisinha mágica que era aquilo, o movimento das mãos, o sentido da agulha, aquele trocar de lados sem fim e a trama tão perfeita que saía como resultado de tanto mexe-mexe.

Mas como descobrir essa arte? O comum é que as mães e avós ensinem as crianças, assim como minha mãe se esforçou para me ensinar o crochê. Que pena que a minha família não tinha nenhuma tricoteira… Cresci fadada a não saber nunca como tecer um mísero cachecol.

Porém como dizem por aí, sou brasileira e não desisto nunca. Depois de adulta me meti a fazer trabalhos manuais, na verdade, descobri que tinha interesse e também facilidade para fazer pequenos projetos artesanais e me lembrei das mágicas agulhas de tricô.

Oras, se era possível aprender a fazer artesanato pela internet, por que não seria possível encontrar algum tutorial de como tricotar? E foi assim que eu, por meio do Google e do YouTube, aprendi a tricotar! Comprei duas agulhas, alguns novelos de lã e seguia as dicas dos vídeos e sites que encontrava.

Não sou uma exímia tricoteira, mas consigo exibir por aí alguns cachecóis, polainas e gorros, especialmente para a Jamile que adora! Para falar bem a verdade, o tricô é o meu “guilty pleasure”, ou seja, aquela atividade que eu curto, mas tenho vergonha de admitir.

Tem sido uma boa terapia para a minha ansiedade, pois enquanto estou tricotando, minha mente fica focada em cada ponto, no deslizar das agulhas, na trama que vai saindo… Apesar de ser cansativo, é relaxante e não tem coisa mais gostosa do que terminar um trabalhinho e saber que vou poder usar algo feito pelas minhas próprias mãos.

Experimentem, gente, tricô é só amor! ;o)

Eu tenho transtorno de ansiedade

Sim, gente, eu tenho. E não tenho vergonha de assumir, não. Como eu costumo dizer, ansiosa eu sempre fui e sentia os efeitos desse mal desde muito jovem. Quando eu tinha uma prova importante ou uma apresentação, eu sonhava que chegava atrasada, perdia os materiais, não conseguia entrar na escola, só coisas angustiantes.

Na idade adulta isso passou a acontecer antes das entrevistas de emprego. Era batata! Na noite anterior à uma entrevista ou dinâmica de grupo eu tinha sonhos terríveis onde tudo dava errado. Lá ia eu com aquela cara de quem não dormiu bem enfrentar o entrevistador…

Quando comecei a crescer profissionalmente foi que a coisa começou a caminhar para o lado negro da força e eu conheci o que era ter insônia. Durante muitos anos tive crises de insônia de madrugada. Ia pra cama cedo, afinal estava cansada de não dormir bem e lá pelas 3 ou 4 da manhã eu simplesmente despertava. Puf! Simples assim!

E começava o meu martírio… Tudo vinha na cabeça, os prazos a cumprir, os relatórios, as coisas que eu não tinha finalizado no dia anterior, os compromissos daquele dia, as campanhas, as reuniões, os horários, os prazos e prazos e prazos…

Segurei a onda por um tempo, mudei de emprego algumas vezes, sempre procurando uma alternativa à essa pressão profissional que não me fazia bem. Tive uma filha. Fodeu! Sim, gente, depois da chegada de Jamile a coisa desandou novamente.

Mudei a minha vida profissional, mas não mudei meus hábitos. Com o trabalho fixo meio período comecei a encher a agenda de projetos, assumi responsabilidades, parcerias e me esgotei. No final do ano passado tive uma crise. Eu passava noites inteiras sem dormir. Noite sim, noite não. Estava exausta e não dava conta de metade do que eu tinha me comprometido a fazer. Pior: não estava dedicando meu tempo a quem mais precisava dele, a minha filha.

Parei, refleti, pedi socorro. Tracei um plano, fui largando um projeto aqui, uma parceria ali, reduzi bastante a minha produção freelancer por uns dois meses e procurei um médico. Desde janeiro desse ano estou tomando um ansiolítico e comecei a fazer ioga duas vezes por semana.

2016 tem sido o ano da minha desaceleração. E estou me sentindo muito melhor agora!

Uma história de todo dia

Hoje eu vou contar uma fábula. Era uma vez uma jovem meio desmiolada que gostava muito de balada e de namorar e de aproveitar o que a vida tinha de bom a oferecer. Ela tinha pais muito amorosos, porém exigentes que garantiram que ela teria uma boa educação até a faculdade.

Um belo dia, essa jovem se envolveu com um rapaz mais novo e ficou grávida. O rapaz não quis assumir a responsabilidade e ela foi mãe solteira aos 24 anos. O bebê foi uma surpresa para todos os familiares, mas foi muito bem recebido e amado.

Quando ele tinha mais ou menos 2 anos de idade, a mãe se casou com um amor do passado que surgiu e se aproximou novamente. Na época, esse rapaz se disse apaixonado pelo pequeno também e o assumiu como seu próprio filho.

Infelizmente essa não é uma história de final feliz. O casamento foi um tanto conturbado, o rapaz se mostrou menos paciente e amoroso ao longo do relacionamento e a jovem, como eu disse antes, era um tanto desmiolada, avoada, irresponsável. Antes de finalmente se separarem e seguirem cada um para o seu lado, tiveram uma filha juntos.

A separação foi cheia de percalços, brigas, desentendimentos, ambos tinham mais interesse em atingir um ao outro do que resguardar as crianças desse cenário de guerra. Houve muita alienação parental dos dois lados.

Como todo bom pai separado, ele foi viver a vidinha dele, comprovou na justiça que era autônomo, recebia um valor irrisório de pró-labore e, por isso, só poderia pagar uma pensão ainda mais irrisória. Enquanto a mãe ralava para dar conta de tudo, recebendo salário ruim e pensão pior ainda, o ex esbanjava no Facebook viagem para o exterior, apartamento novo em bairro nobre e encantava as crianças com tudo o que dava a elas nos poucos dias em que ficava com os dois.

Em determinado momento da vida, pai e mãe, ex-mulher e ex-marido, resolveram que seria bom a menina ir morar com o pai e o mais velho ficaria com a mãe já que ele já era adolescente e já estava começando a seguir seu próprio rumo. (Ou talvez tenha sido assim porque o mais velho não era filho “de verdade” desse ex… vai saber, não é.)

A menina então passou a ter acesso a uma ótima escola particular, uma vida regrada, confortável, cachorrinho de presente, viagens, toda uma estrutura familiar de dar inveja. E o filho mais velho? Batendo cabeça com a mãe que, como eu disse, continua sendo meio desmiolada…

Hoje, o ex segue sua vidinha sendo ovacionado em redes sociais, “o pai que também é mãe”, o exemplo de homem, aquele que faria o que nenhum homem costuma fazer. A mãe com certeza é tida como uma desvairada, que não ama a filha, uma perdida.

Ah, você já deve ter visto esse filme, né. A questão é que não se trata apenas de história. A jovem é a minha irmã do meio, as crianças são meus sobrinhos. E o ex, ah, desse eu tenho nojo.