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Falando sobre adoção – os grupos de apoio

Quando eu comecei a estudar o assunto adoção, antes mesmo de dar entrada na papelada na VIJ, fiz contato com alguns grupos de apoio. E me decepcionei com o que vi. Talvez eu tenha criado uma imagem romantizada sobre esse tipo de instituição, mas eu nunca encontrei o que realmente esperava deles: acolhimento.
Primeiramente, cheguei como leiga, não sabia nada sobre o tema, não sabia nem por onde começar e pensei que, ao me identificar e explicar o motivo de estar ali, eu seria acolhida e orientada. Eu pensei que teria minhas dúvidas sanadas, que receberia algum tipo de apoio psicológico, caminhos por onde seguir. É, acho que romantizei. Mas então por que diabos eles se chamam “grupos de apoio”?
O que eu encontrei nesse primeiro contato foi um grupo de pessoas cheio de boa vontade em falar sobre o assunto, em promover as chamadas “rodas de conversa”, mas a coisa toda não levava em consideração os estágios que cada participante estava vivendo do processo. Passei uma hora inteira escutando pessoas repetirem os velhos argumentos de sempre: a demora, a burocracia, as crianças esquecidas nos abrigos… Se, por acaso, eu estivesse em dúvida sobre adotar ou não, teria desistido ali tamanha a decepção que senti com aquela discussão. Ainda bem que eu estava muito certa do que queria e entendi que aquele lugar não era pra mim. Pelo menos não naquele estágio. Fiz uma nova tentativa de participar de um outro grupo durante o curso de pretendentes, mas continuei sentindo falta daquele tal acolhimento.
Na minha fantasia romântica, os grupos de apoio teriam como principal objetivo esclarecer aqueles que estavam chegando no mundo da adoção e nem faziam ideia de qual seria o primeiro passo, o segundo, o terceiro… Além disso, na minha visão, deveria ser um espaço de promoção positiva sobre o ato de adotar. Como assim? Ao invés de focar nas dificuldades, na morosidade, nos erros de julgamento, investir na divulgação dos casos de sucesso, no esclarecimento positivo sobre as dificuldades desse caminho. Sem preconceitos, esclarecendo e fortalecendo os pretendentes. Eu só senti desânimo, julgamentos, preconceitos e negatividade por onde passei, infelizmente. E por isso resolvi seguir o meu caminho por conta própria, pesquisar da minha maneira, trocar ideias com quem estivesse na mesma vibe que eu, manter a positividade.
Vou exemplificar. Na maioria dos grupos por onde andei percebi semeada a ideia de que adotar tem que ser um processo sofrido para ser legítimo. Tem que ser difícil, você tem que passar mil anos na fila, a criança tem que vir de longe, você tem que gastar rios de dinheiro, tem que cumprir estágio de convivência longo, longe de casa, uma enorme turbulência na sua vida. E depois que a criança chega tem a adaptação difícil, os problemas de convivência, a carga emocional que ela traz consigo, maaais turbulência. Se a coisa fluir de maneira um pouco menos conturbada, o povo já torce o nariz pra você.
Gente, quem disse que tudo tem que ser assim, cheio de conflito e problema? Sou prova viva de que o processo funciona! Fiquei um ano na fila, minha filha chegou saudável, pequena (com aquela idade que o povo tooooorce o nariz grandão), na mesma cidade em que moro, não passei nenhuma odisseia para tê-la comigo! Olha que experiência legal de compartilhar!! E quem sabe assim fazer com que mais pessoas percam o medo de adotar e que aqueles que estão vivendo a angústia da espera possam ter suas forças renovadas! Mas os grupos de apoio ficam lá evidenciando as dificuldades, lamentando a morosidade, torcendo o nariz para as experiências positivas.
Que fique claro que também considero muito importante que as dificuldades sejam mostradas, pois muitas pessoas se iludem com relação ao exercício da maternidade/paternidade e com os sentimentos envolvendo a adoção. É importante falar sobre a possibilidade de rejeição, sobre possíveis comportamentos ruins por parte da criança, os desafios são grandes e eles não devem ser mascarados. É preciso saber onde estaremos pisando para ter crteza de que vamos aguentar o tranco. Mas, na minha opinião, o maior serviço que as pessoas envolvidas no mundo da adoção podem (e devem) prestar é o esclarecimento positivo. Pois mesmo nos casos em que a adaptação é difícil e o caminho é tortuoso, tudo passa, tudo se ajeita, tudo evolui.
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E um ano se passou…

Março chega ao fim marcando um ano que nossa família está completa. Como o tempo passa rápido! Nesse período aprendi e ensinei e, acima de tudo, me renovei a cada dia. Estive no fundo do poço emocional, experimentei a rejeição, as dúvidas e incertezas e fui minha pior algoz cobrando exageradamente de mim mesma algo que eu ainda precisava descobrir como ser/fazer. Redescobri meu companheiro de toda a vida e junto com ele, renovei meu relacionamento. E, acima de tudo, me descobri mãe em sua plenitude! E como é gostoso reconhecer o amor nos olhos de uma figurinha pequena que depende unica e exclusivamente de você.

Jamile se desenvolve a olhos vistos. Às vésperas de completar 3 primaveras minha menina fala pelos cotovelos, argumenta como gente grande e tem sacadas sensacionais para alguém com seu tamanho e “experiência de vida”. E repete, repete, repete e repete mais um pouco os nossos dizeres, os nossos trocadilhos, as nossas frases de efeito, as nossas reações. Temos uma mini-Lene e mini-Roberto em casa.

O cabelinho que era tão pouquinho desabrochou numa cabeleira cacheada. Gosto muito de te ver, meu leãozinho! Adora maquiagem, não posso deixar nenhum batom dando sopa que ela ataca todos com vontade. E ainda vem mostrar que está linda com os lábios (e praticamente a cara toda) pintada.

No quesito alimentação, a pequenina costuma mandar bem com raríssimos casos de falta de apetite. O prato preferido é macarrão e de uns tempos pra cá deu pra ficar mais seletiva com alguns ingredientes. “Eu num gosto di cinora” é a frase que mais tenho escutado ultimamente. Como eu sou (mãe) brasileira e não desisto nunca, a cenourinha entra no cardápio bem raladinha e escondida. Não gosta de cenoura… Pra cima de mim, não! Continuo xiita com relação a doces e porcarias. E tenho colhido bons resultados. Esse fim de semana Roberto presenciou alguém oferecendo refrigerante pra ela numa festinha infantil. Jamile provou, fez careta e devolveu o copo. Rá! Ponto pra mim!!!

O comportamento da princesa vai de vento em popa. Posso dizer que finalmente encontramos o equilíbrio e tenho exercitado muito a solução dos impasses com o diálogo. Temos dias complicados, temos choro, temos show em espaços públicos… Mas tenho recebido feedbacks muito positivos dos que me cercam. Acho que estamos no caminho certo do que idealizamos para a nossa família. Além disso, Jamile está vivenciando uma fase de muita fantasia onde conta e vivencia muitas histórias. Tem dias que ela é uma princesa, em outros momentos ela é uma bruxa malvada ou um fantasma. E tem dias que ela veste minhas roupas e é a mamãe. Ah e eu sou a Jamile.

O relacionamento com os bichanos está bem melhor também. Percebo que ela tem mais consideração e respeito por eles, se preocupa com o bem-estar de cada um e aprendeu a fazer carinho com mais cuidado. Acho que no futuro todos serão bons amigos.

Posso dizer que a fase de adaptação terminou, nossos laços se formaram, se estreitaram, se acomodaram. Que venham os próximos anos e as novas fases de desenvolvimento que agora eu sei que dou conta! Sei que a maioria das mães sofre um pouquinho ao ver seus rebentos crescendo e se tornando independentes, mas eu sonho com todas as fases que estão por vir! Imagino como Jamile vai agir com 6, 10, 15 anos de idade. Vamos que vamos!

 

 

 

Essa coisa de blog

Sempre leio por aí que em um dado momento todo mundo que tem blog acaba se perguntando se não é hora de parar com tudo e ir tocar a vida. Eu também já estive nessa encruzilhada.

Tem dia que a gente acorda meio assim, sem inspiração, acha tudo o que escreveu meio sem propósito, ou então acha que já deu o que tinha que dar e que é chegada a hora de dizer tchau. Agora na virada do ano esse sentimento voltou forte. Talvez por conta de algumas insatisfações pessoais que me tomaram muito tempo e energia, talvez por causa dessa coisa cármica que é o encerramento de um ano e o início do outro: o famoso momento em que a gente repensa tudo o que fez e o que virá a fazer.

Eis que eu passei esses primeiros 20 dias do ano focada em situações complicadas, sem tempo e disposição para escrever uma linha decente, pensando se não seria mesmo o momento de dar adeus ao blog quando acontece uma situação muito inusitada! Eu, marido e Jamile fomos aproveitar o sol (coisa rara em Curitiba) num parque aquático que fica bem pertinho, na região metropolitana da cidade nesse fim de semana. Filhotinha se acabou de pular na piscina com onda, na piscina sem onda, nos escorregadores, foi uma delícia! Em certo momento, ela já estava “vencida” pedindo pra ir embora, nós dois pensativos se não tinha mais nada que ela pudesse aproveitar antes de sair, quando de repente uma moça se aproximada e delicadamente pergunta:

– Você é a mãe da Jamile?

– Aham…

– Que legal, eu acompanho seu blog! Também estou na fila de adoção!

Fiquei tão surpresa com a situação (e deliciada, diga-se de passagem) que cometi uma gafe horrorosa! A pessoa mais mal educada do mundo aqui nem sequer perguntou o nome da moça querida que conversou comigo e trocou mil ideias naquele dia. Perdão, viu! Eu geralmente não sou assim! É que fui pega de surpresa… Mas adorei o nosso papo, embora tenha sido rápido, pois minha filha não parava de dizer que queria ir embora! E deixo aqui um apelo: me deixa recado, me passa email, sinal de fumaça o que for! E me conta tudo do seu processo, viu! Já estou mandando boas energias para você e a família!

Dentro do carro falei para o marido:

– Amore, tô ficando famosa, olha que coisa legal!

– Tu não, a Jamile, né.

– Tá, tudo bem, a Jamile… Que seja! Nem pra me deixar curtir a sensação de fama um pouquinho…

E isso renovou minha vontade de escrever, afinal tem gente que está aproveitando as minhas dicas sobre adoção e isso me deixou muito feliz. Vamos que vamos, 2014, alguma coisa tem que dar certo!

 

O caso Duda

Mais um caso fora do comum envolvendo adoção está na mídia há algum tempo. Quis me pronunciar a respeito desse caso aqui no blog, pois recentemente passei por uma situação que me fez refletir um tanto. Eu estava num churrasco com o pessoal da empresa e me pediram para contar a nossa história de adoção. E eu, particularmente adoro falar sobre isso, não me incomoda nem um pouco, afinal sou uma grande entusiasta da adoção. E nesse dia, no meio da conversa, surgiu um comentário sobre o caso Duda e algumas caras de desconfiança rolaram, quase me perguntaram se eu não tinha medo de levarem minha filha embora.

Como eu sempre fiz questão de abrir geral aqui no blog como funciona o processo de adoção em Curitiba e como tudo aconteceu comigo justamente para que, de certa forma, isso funcione como utilidade pública e dê um pouco de alento a quem está interessado no assunto, vou falar sobre o caso Duda.

Primeiramente, falando sobre o funcionamento das leis no Brasil, uma criança só é considerada disponível para ser adotada quando ela não tem mais nenhum tipo de vínculo legal com sua família biológica, o nome disso é a famosa ADPF (Ação de Destituição do Poder Familiar). Sem que esse processo tenha sido concluído, nenhuma criança pode ser adotada. De maneira bem simplista, a coisa acontece mais ou menos assim: a criança é abrigada por qualquer motivo relevante (maus tratos, abandono, etc) e os órgãos competentes começam a trabalhar com essa família para que eles tenham condições de reaver a criança. Vejam só, a prioridade sempre é de reintegração à família biológica. O correto é que a criança abrigada tenha seu caso avaliado a cada 6 meses e fique abrigada no máximo 2 anos. Claro que isso nem sempre acontece por n motivos como falta de pessoal nas varas de infância, etc.

Em alguns estados brasileiros, os profissionais das varas de infância consideram praticamente impossível que haja reintegração da criança, porém o processo de destituição da família biológica é demorado e para que essa criança tenha a oportunidade de estar num ambiente familiar, eles chamam o casal da vez da fila de adoção. Afinal de contas, é óbvio que é muito melhor para ela crescer recebendo os cuidados e atenção de uma família do que no abrigo, certo. A questão é que, nesse caso, sem ADPF concluída, tudo pode acontecer… Essa família não é considerada ainda família adotiva, mas sim família substituta. E como eu expliquei anteriormente, as leis brasileiras e o entendimento feito sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente é que a prioridade total e absoluta é sempre da família biológica, ou seja, dos laços de sangue. O caso Duda é justamente assim. A família bio alega estar recuperada dos problemas que outrora a fizeram perder a filha e, como não havia sido concluído o processo de destituição, o juiz entendeu que era correto devolvê-la para aqueles com quem ela tem laços de sangue. Injusto? Ao meu ver, muito! Mas assim são as leis…

Em Curitiba, os profissionais das varas de infância dizem que não trabalham com risco. O que isso quer dizer? Que todas as crianças encaminhadas para adoção já estão com suas situações regularizadas, ou seja, já possuem o processo de destituição concluído. Por um lado isso é bom, pois realmente garante que o seu filho não será retirado de você, mas por outro lado faz com que as crianças vivam abrigadas por um tempo maior. E tempo de vida é algo que não se recupera, não é verdade.

No fim das contas, o meu objetivo é dizer que adotar vale muito a pena. Quem ficou balançado com a história da Duda, não esmoreça. Principalmente se você for de Curitiba, continue na sua empreitada, pois a adoção propriamente dita é irreversível. A partir do momento que é dada a sentença e que a nova certidão de nascimento é expedida, a criaturinha é sua e ninguém tasca.

O drama do sono

Em cada família existe um drama. Lá em casa é o drama do sono. Na verdade, o drama não é o sono, pois Jamile dorme muito bem, salvo raríssimas exceções. O grande pepino lá em casa é a hora de dormir. Jamile simplesmente não quer ir dormir! E isso se mostrou latente desde os nossos primeiros dias em família. Partindo do princípio de que uma boa noite de sono é essencial para que uma criança seja saudável e que a mamãe considera deveras importante que a filhotinha tenha horário certo para ir dormir, o caos se instala lá em casa praticamente noite sim, noite também.

Eu já tentei diversas técnicas e todas com algum nível de sucesso e um certo nível de fracasso. A primeira técnica utilizada foi a da maldita Super Nanny, aquela onde você deixa a criança se esgoelar de chorar até cansar e finalmente pegar no sono. Cada um sabe onde seu sapato aperta, como que funciona o seu filho, mas eu super-mega NÃO recomendo. O resultado culminou em noites e mais noites de estresse e culpa e sucesso quase que nenhum. Jamile não aprendeu a dormir sozinha e eu ficava “fritando” na cama enquanto ouvia a criaturinha chorar e me chamar ad eternum. Há situações em que dar uma ignorada na sua cria funciona pra valer, mas eu prefiro que a hora de dormir seja algo no mínimo prazeroso e tranquilo.

Tentei abstrair completamente das minhas crenças anti-criança na cama dos pais e também utilizei dessa técnica. Jamile ia comigo pra minha cama, depois de pegar no sono eu carregava a criaturinha para a cama dela e fomos felizes assim durante um tempo. Pouco tempo. Pois nesse ambiente é mais difícil controlar o horário e as distrações e chegou num ponto em que ela super me enrolava pra dormir. Resultado: estresse absurdo para essa mãe e criança dormindo fora de hora. Além do fato de eu me corroer internamente por achar que o melhor seria ela aprender a gostar de dormir no seu próprio ambiente e eu não estava proporcionando isso ao usar desse artifício. Logo, não recomendo também.

Um belo dia, no auge do desespero, eu pensei que o problema da Jamile era ficar sozinha no quarto. Coloquei filhinha pra dormir e fiquei ali sentada do lado da cama. O objetivo era mostrar “viu, criança, mamãe está aqui” e funcionou. Ela se mostrou mais calma com a hora de dormir, mas foi quando ela começou com a mania de me pedir mil coisas diferentes para desviar o foco. E dá-lhe pedir água, suco, bolacha, colo, paninho, leite, suco de novo e mais água. Eu confesso que caí como um patinho nos primeiros dias, depois que eu entendi a estratégia tratei de ignorar os pedidos e voltar a atenção dela para o sono. Mas quando ela pede colo, eu sempre dou. Curioso que foi uma reação muito instintiva da minha parte. Pediu colo, peguei e expliquei: “filha, mamãe vai pegar você um pouquinho no colo e depois você vai voltar pra sua cama, tá bom?” Esperei por um choro daqueles de acordar a vizinhança, mas ela aceitou muito bem o combinado e dormiu tranquila. Conversando com uma vizinha, dias depois, descobri que isso que eu tinha acabado de fazer é na verdade parte da técnica da Encantadora de Bebês. Uau! Já gostei dessa mulher sem nem conhecê-la.

Antes que me perguntem o óbvio, sim, eu criei uma rotina. E as rotinas funcionam com a Jamile por aproximadamente 15 dias. Depois disso ela maquina alguma coisa naquela cabecinha cacheada para me enlouquecer. Um belo dia, sem saber mais o que fazer, guiada pelo instinto e com base em algumas leituras feitas no Sr. Google, comecei uma nova rotina que tenho (tentado) seguido até os dias atuais. Começo avisando que daqui meia hora é a hora de dormir e vou diminuindo o contador, aviso de novo em 15 minutos, 10 minutos, 5 minutos. Na hora de ir pra cama, beijinho no papai, boa noite e ela deita com o kit “nana nenê”: paninho pra cheirar, boneca, travesseiro, cobertor. Se um desses itens faltar, mamãe tem que ir correndo buscar. O próximo passo é deixar que ela assista um videozinho no iPad por uns 15 minutos no máximo (depende do bom humor da mamãe), desligo, faço um cafuné e a lindinha dorme o sono dos justos. E fomos felizes para sempre por mais ou menos duas semanas.

Na verdade, essa última técnica criada por mim mesma foi a que eu considerei mais assertiva para a família. Consigo fazer com que ela durma na própria cama, consigo seguir a rotina e a hora de dormir rola sem grandes estresses, do jeitinho que eu idealizei. Mas nem tudo são flores. Tem dias que tenho que apelar para cara feia, cobras e lagartos. E todo mundo se estressa. E vou dormir me sentindo uma fracassada. Esses dias resolvi comprar o novo livro da tal Encantadora de Bebês que é voltado para crianças de 1 a 3 anos. Ainda estou no começo da leitura, mas quem sabe ela me ajuda, né.

Boa noite de sono para todos vocês!

 

O que fazer quando os seus valores são diferentes?

Sábado era dia das crianças e, como não temos parentes próximos, aceitamos o convite de um casal de conhecidos que também tem filho pequeno para passar a tarde na casa deles. Teria sido uma excelente ideia se a criança anfitriã, um menino de 2 anos e 9 meses (3 meses mais velho que Jamile), não tivesse enlouquecido de ciúmes dos seus brinquedos transformando a tarde num momento ímpar de estresse. Para ilustrar como foi a experiência, o “pega” foi tão grande que houve um momento em que eu tive a sensação de que estava separando briga de cachorro. Briga de cachorro, manja? Quando todo mundo corre desesperado pra separar e cada um puxa o seu e depois dá uma conferida nos estragos causados pelo embate? Então, foi assim. Na terceira vez que isso aconteceu e que minha filha correu assustada e chorando para as pernas do pai eu resolvi que já tinha passado da hora de recolher nossas coisas e ir embora.

E, como esse é o meu espaço de desabafo, precisei vir aqui e jogar pra fora tudo o que tenho sentido e refletido com essa história. Antes de tudo eu preciso falar que fiquei horrorizada com a violência daquela criança. Crianças disputam brinquedos, isso é fato. Crianças nessa faixa de idade são egocêntricas, não controlam suas emoções, isso tudo pra mim é claro como a água. Mas eu preciso dizer o quanto eu fiquei assustada com a reação daquele menino toda vez que Jamile tocava em algum brinquedo preferido. E, como tudo que é ruim pode ficar ainda pior, é lógico que minha pequena travessa, em determinado momento, só queria saber dos objetos que desencadeavam o ódio do “amiguinho”.

Talvez alguns de vocês que me leem devem estar se perguntando “e os pais da criança? o que fizeram? como reagiram?” As pessoas presentes reagiram como se tudo aquilo fosse muito normal. O pai o chamou num canto para conversar num tom bastante tranquilo, depois a mãe, a tia deu risada, a avó justificou aquela atitude pois “ele é sozinho, tudo é pra ele, por isso que ele não sabe dividir”. E eu fiquei horrorizada duplamente com a falta de energia e empenho dispensada àquela criança. Não me levem a mal. Meu objetivo não é vir aqui e repetir os velhos bordões sobre a falta de pulso firme de outros pais e mães. Pois na minha opinião o conceito do que é certo e errado dentro de uma família é uma questão de valores pessoais. Dentro dos meus valores pessoais eu acho inaceitável a violência, eu acredito que faz parte da minha responsabilidade como mãe ensinar a Jamile a controlar seus impulsos, a entender as consequências de seus atos, que toda ação gera uma reação, que ela pode magoar as outras pessoas e que isso não é legal e mais toda  uma infinidade de crenças que eu carrego em mim e desejo passar para ela. Porém, esses são os MEUS valores. E o que fazer quando esses valores não são os mesmos de outros pais?

Esse episódio todo me fez pensar sobre duas coisas com relação à minha filha. A primeira delas foi mudar um pouco o meu olhar sobre ela. Tenho vindo aqui de tempos em tempos e sempre comento o quanto Jamile é agitada, espoleta, difícil, geniosa… Enfim, muitos e muitos foram os rótulos que eu mesma atribuí à ela. Tão pequena e já carregando o seu fardo de pré-conceitos. Minha filha é um grande desafio para mim, isso é fato, mas já posso encher o peito de orgulho e dizer que tenho conseguido fazer um bom trabalho como mãe (um dia de cada vez, uma birra de cada vez). A segunda coisa foi a que mais me instigou. Tenho investido muito tempo e determinação para fazer da Jamile uma menininha legal, educada, fofa e querida. Será que estou equivocada? Será que estou moldando minha filha para viver num mundo cor de rosa onde todos falam “por favor e obrigado”,  e na verdade esse mundo não existe?

Na verdade agora surgiu mais uma coisa importante a ser colocada na minha “to do list” maternal: ensinar minha filha a se posicionar e a se defender. Não acho que estou no caminho errado ao criar minha filha para respeitar os limites dos outros, falar as tais “palavras mágicas” e ser alguém de cuca legal. Acho que é justamente disso que o mundo precisa. Mas preciso ensiná-la a se defender de abusos como o que aconteceu no sábado. E isso vai ser um treino enorme para mim, pois eu mesma sempre tive dificuldades em me defender desse tipo de situação. Espero que possamos aprender juntas.

 

O poder dos (in)quietos

Tenho andado por aí com um livro que se tornou quase que leitura de cabeceira, O Poder dos Quietos, escrito por Susan Cain. O objetivo desse livro é desvendar o mundo dos introspectivos e explicar através de pesquisas científicas e observações pessoais da autora como funciona o cérebro daqueles que preferem ficar à margem dos flashs. Além disso, ela defende uma teoria muito bacana de que ser introspectivo não é igual a ser tímido e que pessoas com essa característica podem contribuir e muito para o mercado de trabalho e para o mundo em geral.

Bom, tenho lido a conta-gotas não só pela falta de tempo em me dedicar a essa leitura, mas porque eu quero ler com atenção e refletir sobre as ideias expostas em cada capítulo. Sábado levei Jamile para o parquinho e resolvi retomar a leitura do Poder dos Quietos enquanto ela brincava na areia. Desmarquei a página (sim, eu faço dessas coisas, eu faço “orelhas” nos meus livros) justamente no momento em que a autora levanta o seguinte questionamento: ser introspectivo ou extrovertido tem a ver com criação ou é algo que nasce com você? Ou é um pouco das duas coisas? E lá pelas tantas ela discorre sobre o assunto e diz que, pessoas que são capazes de cometer atos heroicos ou de grande bravura, geralmente foram crianças extrovertidas que não tinham medo de nada, aquelas crianças que sobem cada vez mais alto nas árvores, por exemplo.

Nesse momento, levantei os olhos da leitura para dar uma conferida na Jamile e, adivinhem? Minha filha tinha largado os brinquedos na areia e estava escalando o escorregador mais alto do parquinho, sem medo de ser feliz. Jamile é destemida, ela é do tipo que vai subir nos galhos mais altos das árvores, ela é do tipo extrovertida, tão diferente de mim! Eu fui uma criança medrosa, que falava baixinho, que não gostava de aparecer, que se metia nas pernas da mãe quando falavam comigo. Cresci com o nariz enfiado nos livros, queria ser astronauta, cientista e depois escritora.

Depois de convencê-la a usar o escorredor menor, aquele que é próprio para crianças do seu tamanho, continuei a minha leitura. Crianças com esse perfil extrovertido (tipo Jamile) possuem uma grande tendência a serem delinquentes se não forem bem direcionadas. Já aquelas que crescem em uma família bem estruturada e com pais cujo perfil seja mais introspectivo, tendem a ser adultos bem sucedidos e que construirão grandes feitos.

Suspiro. Antes de me preocupar com os grandes feitos que ela pode construir no futuro, acho que vou ter que me acostumar com a ideia de ossinhos quebrados e corridas ao pronto-socorro durante a infância dessa criaturinha tão ativa. Tomara que não…