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A carta de referência

A escola de inglês me pediu uma carta de referência do meu último empregador. Putz, tudo o que eu menos queria era entrar em contato com eles. Afinal, minha saída não foi muito bem resolvida e eu não queria ninguém especulando o que ando fazendo da minha vidinha.

Para evitar contatos muito pessoais, mandei um email para a gerente de RH solicitando a gentileza. Alguns dias depois recebi o retorno de que a carta estava à minha disposição. Pedi mais um favor: que deixassem o envelope na recepção do prédio e não na recepção da empresa que fica no 3o andar. Pedi isso por dois motivos: primeiro, não queria de jeito nenhum correr o risco de encontrar algumas pessoas da minha antiga convivência e, segundo, é super ruim estacionar naquela região e eu provavelmente teria que parar em lugar proibido e sair correndo e rezando pra não ser multada.

Cheguei lá ontem e não tinha nenhum envelope na entrada do prédio. Ótimo. Liguei pra gerente (e eu queria evitar contatos pessoais), expliquei que estava numa situação que me impedia de subir e ela mandou a funcionária dela me levar a carta. Chegando em casa, vi no meu email a resposta que eles me deram quando eu pedi esse segundo favor: não costumamos deixar documentos na recepção do prédio, você terá que subir até o 3o andar para pegar a carta.

Logo de cara fiquei nervosa ao ler isso. Mais uma vez eu percebi aquele sentimento de superioridade que eu costumava ver por lá. O que custava deixar um envelope com as recepcionistas do prédio? Mas depois relaxei, ela teve que descer de qualquer forma e entregar a carta na minha mão. O castigo veio à cavalo, como dizem por aí.

E só na hora de entregar a carta para a escola é que eu percebi que ela tinha sido assinada pelo meu ex-chefe. Por motivos que eu já manifestei aqui, prefiro não comentar.

Ser demitido

Ser demitido é uma m%&*a! Em primeiro lugar por causa do sentimento de incompetência que bate na hora em que recebemos a notícia de que os nossos serviços não são mais necessários para a empresa. E ter que encarar as pessoas te olhando com pena enquanto você junta as suas tralhas e limpa as gavetas é a segunda parte mais difícil.

Aí você chega em casa e pela primeira vez em muitos anos tem horas sobrando no seu dia. E você não sabe o que fazer com todo esse tempo ocioso à sua frente. Depois de chorar, se desesperar, querer quebrar alguma coisa, morrer e desaparecer, é hora de começar a organizar um novo caminho. É hora de estudar as finanças, as dívidas, e principalmente, as oportunidades daqui pra frente.

Ser demitido é uma m$%*a principalmente porque você tem que deixar de lado todos os planos que tinham sido feitos, a viagem de férias, o tratamento de saúde, quitar o carro, adiantar o financiamento da casa, colocar o box no banheiro, ter um filho. Tudo fica suspenso, tudo tem que ser colocado na pasta “em aberto”, aguardando que a vida entre no eixo novamente para que as engrenagens voltem a correr.

Traçar um plano de ação, resgatar os contatos, distribuir currículos, ir em entrevistas, manter o bom humor, não se desesperar, não ter mais vontade de morrer, tentar não comer toda a comida que existe dentro de casa, controlar a ansiedade e os nervos à flor da pele. Esse é o meu dia a dia desde que fui demitida em 13 de outubro de 2009. Há sete anos eu não ficava desempregada. It sucks…

Quando você acha que sabe todas as respostas, a vida muda as perguntas.

Durante os primeiros dias eu fiquei repassando aquela mesma cena na minha cabeça. Dia após dia eu me via entrando na sala de reunião dos estagiários, o coração batendo forte no peito, no fundo eu sabia que alguma coisa estava errada. Era terça-feira, primeiro dia útil da semana depois de um feriado, meu ramal tocou perto das 9h e fui chamada para uma conversa. Quando vi meu chefe e a menina do RH sentados, senti um gelo no estômago. Durante os dois segundos que eu me virei para fechar a porta e que voltei a encará-los, eu tremia. Sentei diante dos dois e ficamos em silêncio por alguns minutos, fiquei esperando o próximo passo, trêmula, com o estômago se revirando. Ele começou a falar. “As coisas mudaram aqui na Z…”, olhou para baixo, para os papéis sobre a mesa. Ela também não conseguia firmar o olhar em mim, ficava observando as próprias mãos cruzadas. E foi aí que tudo ficou muito claro para mim. A verdade daquele momento surgiu na minha mente como um clarão. Eu estava sendo dispensada! Não consigo me lembrar de mais nenhuma outra palavra que ele tenha dito. Não sei se o meu nervosismo dificultava o entendimento do que ele dizia ou se era ele quem realmente não conseguia fazer com que as palavras saíssem de sua boca. Senti o rosto todo pegar fogo, as orelhas em chamas, o sangue todo subiu para a cabeça e resolvi acabar logo com aquela situação. Falei o que ele estava procurando palavras para dizer e não conseguia: “estou sendo mandada embora, é isso?” Ele só acenou com a cabeça, deu um sorriso triste e voltou a falar sobre corte de custos e sobre os emails marketing que tinham sido enviados com atraso. Hoje eu penso que deveria ter questionado aquelas explicações, que deveria ter me deixado levar pelo calor da emoção e do desespero para exigir uma postura mais adequada daquele cara em quem eu confiei. Mas naquele momento eu estava paralisada, em choque, sem saber como agir, eu só queria sair dali. E então, respirei fundo e perguntei qual era o procedimento a seguir. Nesse exato momento, ele se levantou, pediu licença e saiu da sala dizendo que ia nos deixar a sós. Um covarde. Foi então que o meu olhar encontrou o dela, da moça do RH e ela parecia tão transtornada quanto eu. Me entregou papéis que eu assinei às cegas e me passou orientações que eu sequer ouvi. Só conseguia pensar nas minhas contas para pagar, nos planos que eu tinha feito, nas passagens para Buenos Aires e no bebê que eu tinha acabado de perder.

*

Passei um dia inteiro chorando. Senti que a minha cabeça ia explodir em lágrimas. Mais uma vez eu me perguntava por que eu estava passando por tudo isso. Repassei mentalmente todos os meus passos, todas as minhas atitudes ao longo desse ano de trabalho e não conseguia encontrar uma lacuna. Via pequenos deslizes aqui e ali, sempre justificados, sempre bem colocados diante do meu superior, eu confiava no meu profissionalismo, no meu senso de julgamento, na minha produção intelectual e no meu diretor. Onde foi que faltei com a minha responsabilidade? Onde foi que eu pisei na bola de tal maneira que justificasse uma demissão? Eu não conseguia encontrar nada. Naquela noite eu não dormi, passei a madrugada procurando essa resposta e sentindo o orgulho ferido e a incompreensão de sofrer mais uma rasteira em tão curto espaço de tempo. No dia seguinte recebi uma ligação que me tirou do vácuo em que eu me encontrava. Uma ex-colega de trabalho teve uma conversa sincera com o diretor e resolveu que eu precisava saber o que realmente tinha acontecido. Ainda bem que ela tomou essa decisão, pois me salvou do poço de pena, incompreensão e lágrimas em que eu estava enfiada. Entendi, então, que uma briga de egos é capaz de acabar com a credibilidade de uma pessoa. Que existem empresários que não são míopes apenas com relação ao seu negócio, mas principalmente com relação aos seus colaboradores. E, principalmente, que existem homens fracos e que preferem agir injustamente a impor a sua verdade. A partir desse momento eu passei a sentir uma imensa decepção e um desprezo enorme por aquele mundo do qual eu fiz parte durante pouco mais de um ano. E pude finalmente levantar a cabeça pra enfrentar o mundo outra vez.