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A gente não quer só comida…

Eu já publiquei aqui em algum lugar (tive preguiça de resgatar o post) que nunca tive muita satisfação em cozinhar. Durante muito tempo da minha vidinha, cozinhar foi um mal necessário e aprendi o suficiente para me virar sem ter que viver à base de miojo. Ou seja, cozinhava o básico para não morrer de inanição aliado a um pouco de sabor.

Eis que o tempo passou e comecei a desenvolver um estranho gosto por assistir programas de culinária. Fui apresentada ao Jamie Oliver, Nigella Lawson, Gordon Ramsay e não perdia um episódio de Top Chef. E aquela alquimia toda parecia tão fácil, tão simples, tão ao alcance. “Hummmm, acho que até eu conseguiria fazer esse prato…” E assim fui me encantando com a possibilidade de gostar de cozinhar. Tenho colecionado igual número de sucessos e fracassos. Embora os fracassos me façam queimar de ódio ao ver ingredientes queridos serem perdidos, mas continuo firme na minha empreitada.

Abri meus horizontes com relação a alguns itens, passei a comprar mais manteiga do que margarina, dei preferência ao creme de leite fresco e aboli o molho de tomate industrializado. E não foi nada assim tão difícil quanto eu imaginei um dia (e nem tão caro). Sim, o sabor é diferente! Sim, dá pra notar! E sim, dá um orgulho danado de apresentar um prato que foi preparado com ingredientes frescos e de boa qualidade. Tenho uma confissão a fazer, ainda sou usuária de tabletes de caldo de carne. Suspiro… Eu sei que tem sódio à beça, eu sei que tem horrores de gordura e estou tentando fazer um detox, gente! Mas vejam que se trata de uma longa tradição passada de geração em geração na minha família. Coisa arraigada mesmo! O que importa é que estou no caminho.

Atualmente tento me disciplinar mais. Meu maior problema é teimar em não seguir a receita ou fazer tudo com um pouco do meu “jeitinho”. “São 3 xícaras de farinha? Ah, mas acabou… Vou colocar só 2 xícaras mesmo, nem vai fazer diferença.” Há casos que realmente dá certo, mas há casos em que vai tudo pro lixo… E tenho vontade de tocar fogo em tudo, livro de receitas, panelas, utensílios. Meu desafio mais recente é fazer um bolo decente, fofinho, daqueles que você saliva só de olhar. Os meus têm ficado assim meio sem crescer, meio “abatumados” como dizem por aqui. Jamile adora todos! Então nem fico assim tão triste. E já coloquei em prática todas as dicas que me deram, um pouco mais de fermento, bater as claras em neve e adicionar por último, não abrir o forno pelo menos nos primeiros 30 minutos… Pelo jeito o próximo passo é fazer promessa.

A boa notícia é que marido gosta de cozinhar e tem um certo talento a mais do que eu para a comidinha do dia a dia. Como ele mesmo fala, é preciso colocar amor no que se faz…

 

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Aos pitaqueiros de plantão

Tenho escutado muita coisa infame nesse último mês depois que a Jamile chegou. Separei algumas pérolas e uns comentários um tanto duvidosos e, em alguns casos, acrescentei a resposta que eu gostaria de ter dado.

*

– Quem sabe lá de onde ela veio, não tinha fralda, né, pra ela usar…

– É verdade, acho que as crianças eram enroladas em folhas de bananeira.

*

– Nossa, como ela come bem! Será que ela passava fome lá no abrigo?

– É que eu esqueci de contar, mas nós fomos buscá-la na Somália.

*

– E ela tem pai e mãe?

– Sim, eu e meu marido!

– Não, os de verdade!

– Ué, mas nós somos pais de verdade!

– Ah, você entendeu o que eu quis dizer…

– Não, desculpa, acho que eu não entendi.

(esse diálogo foi verdadeiro)

*

– Ela tá com tosse, né. Você está tratando disso?

– Não, eu pensei em deixar sarar sozinho, acho que ela não vai morrer disso, né.

*

– Quem sabe agora você engravida!

– É verdade, né… Daí eu vou lá e devolvo essa criança que não é minha mesmo.

*

– E ela estava aonde? Num orfanato?

– Esse termo não se usa mais, ela estava num abrigo, numa casa lar.

– Hummmm…

(diálogo verdadeiro também)

*

– Quando vocês se casarem na igreja, ela vai levar as alianças!

Essa nem teve resposta, eu e marido caímos na risada e ignoramos o comentário.

 

Três histórias para contar

Era quase natal e fomos convidados para um churrasco na casa de “amigos”. Sim, a palavra amigos veio entre aspas de propósito. O evento era na casa de amigos entre aspas. Não preciso prolongar as explicações.

Lá pelas tantas, aquele vai e vem de gente desconhecida e semi-desconhecida, chega um casal com bebezinho recém-nascido. Todo mundo para quando vê um bebê, ele vira o centro das atenções em qualquer lugar, normal. A mãe do bebê diz qualquer coisa e uma resposta surge do meio da mulherada: “não se preocupa com isso, pois todo mundo que está aqui já passou por essa fase…” Sensação de soco no estômago e me encolho um pouquinho. Olho para os lados e torço muito para que ninguém sem-noção perceba minha presença no grupo e largue um comentário do tipo “quase todo mundo já passou por essa fase…”

Volto para casa com uma pontinha de chateação, a noite não foi das melhores para mim. Irracional? Pode ser, mas ir a um lugar que eu não fazia muita questão de estar e passar por uma saia justa que, muito provavelmente só eu notei, mas que me atingiu, ninguém merece…

***

Minha amiga Regina foi mãe há uns 4 ou 5 anos e passou por uma situação impensável. Teve parto prematuro, o Pedro nasceu com 6 meses apenas e depois de lutar muito para sobreviver, é uma criança com várias sequelas físicas. Ele tem algumas necessidades especiais e dificuldades de locomoção.

Há alguns meses soube pelo FB que ela estava grávida do segundo filho! Que felicidade! Depois de algum tempo soube que era uma menina! Desejei do fundo do meu coração que dessa vez tudo desse muito certo para eles.

Na noite em que voltei para casa daquele churrasco, ainda pensando nas injustiças da vida, em como conviver melhor com certas situações, liguei o computador e resolvi dar uma olhadinha nas redes sociais. Havia um recado da Regina informando que a filhinha dela tinha falecido depois de 13 dias de nascida. Bam! Fiquei paralisada por um momento. Por que essas coisas acontecem e, principalmente, por que acontecem com pessoas boas? Nunca vou saber…

Moral da história: eu sou mesmo uma ridícula que reclama demais. As minhas provações não se comparam às histórias que existem por aí.

***

Minha prima Ivana foi a primeira pessoa próxima de mim que resolveu sair de São Paulo e procurar uma vida com mais qualidade. Com 20 e poucos anos ela resolveu morar em Salvador e lá está até hoje. A Ivana não tinha vontade de se casar e de ter filhos. Ela queria vencer na vida, ter um bom emprego, ter uma situação financeira estável, ajudar a cuidar da mãe e do sobrinho.

Ela teve uma grande decepção amorosa e, depois de alguns percalços, reencontrou um amor da adolescência que largou tudo para ir viver com ela em Salvador. Nas nossas conversas pelo Skype sempre abordamos o amor que ela tem aos animais (são 2 cachorrinhas, 2 gatos e um furão vivendo no mesmo apartamento), as dificuldades profissionais e os desafios do casamento. Falamos também sobre as minhas tentativas de ser mãe, sobre o processo de adoção e ela reafirma que a maternidade nunca esteve em seus planos.

Um dia tudo mudou. Ela ficou grávida! Sem planejar, sem saber como, sem ter vontade. Me contou com palavras desesperadas de quem não sabia que rumo seguir. Só conseguia pensar na possibilidade de crescimento profissional que teria que abrir mão, no orçamento doméstico que andava curto, na total falta de sentimento maternal que ela teve a vida toda. Falei palavras de apoio, pedi que ela procurasse um psicólogo, que buscasse alternativas como meditação, florais, yoga. Disse à ela que aquilo tudo tinha uma razão de ser e que aos poucos ela iria compreender melhor isso.

Não é fácil também estar nessa situação. A sociedade exige que toda mulher seja mãe e que se ela não deseja ter filhos, ela tem algum problema, algo de errado acontece com ela. Eu não acredito nisso. E respeitei o “luto” da minha prima diante de uma gravidez indesejada. A Marcella está prestes a chegar e eu acredito que tudo vai mudar na vida de mãe e filha e que esse momento será apenas um detalhe na história delas.

Em boca fechada…

Na empresa que eu trabalhava, a escola de inglês, eu tive a oportunidade de conhecer muita gente legal. Uma dessas pessoas foi minha assistente na coordenação de idiomas, a Thalyta. A Thalyta é uma mocinha de vinte e poucos anos, bonita por dentro e por fora. Além de ter um rosto lindo, cabelo lindo e ser toda linda, ela era muito querida, atenciosa, uma pessoa do bem. Claro que a Thalyta não era perfeita, pois não existem pessoas perfeitas. E ela tinha um relacionamento um tanto conturbado com o namorado dela.

Durante todo o período em que trabalhamos juntas eu acompanhei os altos e baixos da vida a dois da Thalyta. E tinha briga por telefone, e tinha choro, e tinha discussão por causa de status no Facebook… Lá no fundinho eu ficava me perguntando por que as coisas tinham que ser assim. E sempre que ela me permitia, eu falava um pouco sobre a minha maneira de me relacionar, sobre ciúmes, sobre a vida a dois e que a gente veio nesse mundo para ser feliz e não para sofrer dessa maneira com coisas tão pequenas.

Um belo dia, depois de muitas idas e vindas, ela anunciou que estava solteira e que dessa vez era definitivo. E ela falou isso de maneira tão convicta que todo mundo realmente acreditou que era verdade. E, nós mulheres, seres dotados de muitas virtudes, exceto um filtro na boca que nos impeça de falar bobagem, acabamos comemorando e incentivando a Thalyta a viver uma vida mais condizente com a idade dela. “Vai sair, menina, vai ser feliz. Esquece esse cara.” E quando ela perguntou a minha opinião, o que eu realmente pensava a respeito da história dela com o namorado, a imbecil aqui abriu o bocão enorme e simplesmente falou.

A Thalyta saiu, conheceu outras pessoas, fez coisas que todos nós fazemos aos vinte e poucos anos, mas ela não se divertiu. Ela sentiu que estava forçando a barra com ela mesma, que estava indo contra seus princípios e resolveu que era hora de voltar para a casa dos pais lá no interior de SP. Eu senti a tristeza dela, o cansaço dessa vida dura de quem mora sozinha e tenta viver uma vida melhor longe da família e a apoiei nessa decisão. Mas antes que ela pudesse fechar as malas, o tal (ex)namorado finalmente percebeu que estava perdendo a Thalyta de vez e a pediu em casamento. E ela aceitou.

Ela demorou algum tempo para me contar a grande novidade. Para falar a verdade, eu soube primeiro por outra pessoa. Quando ela finalmente conversou comigo, a impressão que eu tive é que ela estava quase pedindo desculpas, justificando o tempo todo que ele era mesmo o grande amor da vida dela e que ela queria ser feliz e por isso aceitou o pedido dele. Eu fiz apenas uma pergunta: você está feliz? E quando ela disse que sim, desejei a ela toda a felicidade do mundo e que tudo desse muito certo de agora em diante. Lá no fundo eu tinha minhas dúvidas se ela tinha tomado a decisão mais acertada e até mesmo se o cara tinha noção do grande passo que tinha tomado. Mas, apesar de ter essa sensação de dúvida, eu nunca desejei mal aos dois. E a minha opinião era apenas isso: “a minha opinião”.

Tanto eu quanto ela saímos da empresa na mesma época e eu a fiz prometer que manteria contato comigo. Coisa que não aconteceu. Ela simplesmente sumiu da internet, apagou todos os perfis nas redes de relacionamento, desapareceu. Pelo menos até ontem! Ontem um amigo em comum compartilhou uma foto dela no FB com uma barriguinha de 5 meses de gravidez, está esperando uma menina. E eu tive ímpetos de adicioná-la aos meus amigos, comentar a foto, dizer que ela ficou uma grávida linda e que ela é uma grandecíssima FDP por ter sumido desse jeito. Mas eu não fiz nada disso.

Eu não fiz nada disso porque eu tenho uma teoria. Num mundo como o de hoje, com tantas ferramentas que encurtam as distâncias, eu acho que se você exclui alguém da sua vida, existe um motivo para isso. E a gente tem que respeitar esse motivo. Pode ser que, ao pedir minha opinião sobre o relacionamento dela, ela tenha ficado chateada com o que eu falei. E agora que a pessoa sobre quem eu falei é o marido dela, acredito que ela  não se sinta à vontade para me ter por perto. E eu preciso respeitar isso. E aprender a deixar a minha boca cheia de opiniões fechada.

Gente fraca

Eu descobri que não gosto de gente fraca. Fraquezas todos nós temos algumas, nossos medos, nossas dificuldades em agir diante de alguma situação da vida. Normal. Mas gente fraca de espírito é de doer a alma. E irrita pacas.

A pior coisa que tem é você identificar que uma pessoa é fraca de espírito, que ela não sabe se impor quando é preciso, que ela vira saco de pancadas de todos que a rodeiam. É triste. E irritante.

Fraco de espírito é aquele ser humano que está sempre se desculpando por tudo o que acontece, é aquele que se deixa humilhar sem revidar, é aquele que faz de tudo para ser aceito e que aceita tudo o que vem dos outros. Do elogio à pedrada. É aquela pessoa que se desmancha e escorre, que amarela, que não defende os seus, que não mostra a que veio e que está nesse mundo à passeio. E que não inspira ninguém.

Ai como eu detesto gente fraca! Não sei se vou saber reproduzir a frase de maneira correta, mas outro dia ouvi algo que cabe perfeitamente no que eu ando sentindo: “seja quente ou seja frio, pois se for morno eu te vomito”.

Fazia tempo…

Fazia tempo que eu não ouvia coisas tão fora de propósito como aquelas que eu ouvi recentemente.

Fazia tempo que eu não ouvia alguém do meu convívio dizer, com um sorrisinho irônico no rosto, que o problema da violência em Curitiba é por causa dos paulistas e cariocas. E ainda pedir desculpas depois dizendo que não tem nada contra mim, paulista.

Fazia tempo que eu não via uma criança apontar para um rapaz e cochichar horrorizado no meu ouvido “Olha, ele é bicha!” Aliás, fazia tempo que eu não ouvia alguém dizer isso de outra pessoa, não assim de maneira tão séria.

Fazia tempo que eu não ouvia uma pessoa dizer que prefere ver a filha separada do que mãe solteira. E que quem mora junto não é casado, vive em pecado.

Fazia tempo que eu não sentia o preconceito entre os que me rodeiam e com quem eu convivo diariamente. E isso me chocou. E me fez refletir e entender que é por isso que essas pessoas jamais serão realmente próximas de mim.

Bagunça interna

A cabecinha da criatura aqui anda cheia, viu. A eterna insatisfação rondando novamente, a vontade de iniciar novos projetos e os velhos projetos gritando para serem retomados me fizeram paralisar. É, estou paralisada. Não avanço, mas pelo menos não retrocedo (eu acho).

Na verdade a vida anda confusa, assim meio de leve. Minha irmã está de mudança, again. Fim de semana passado ajudamos a carregar o que sobrou dos pertences dela e ela está instalada na minha casa até 5a feira. Caixas amontoadas no quarto do computador, gatos empoleirados em todas elas, fuçando curiosos. Mala tamanho XXXL na sala, sofá virou cama, blaser pendurado na janela, mesa de jantar abarrotada de apetrechos tecnológicos, iPhone, iMac, iTudo. Mais uma pessoa para usar o banheiro e percebo como a gente se acostuma com a nossa rotina e como é difícil quanto temos que sair dela. É desconfortável, é quase dolorido.

Ao mesmo tempo, existe uma rotina que não se pode alterar, a hora que o despertador toca, a hora de sair para o trabalho para chegar a tempo, o dia da faxina, a reforma. Ah, a reforma. Coloquei na cabeça que quero mudar! Minha vontade maior era mudar de casa, mas como isso não é possível, vamos mudar os ambientes! O novo guarda-roupas já está orçado, 40% dele foi pago e até 20 de dezembro será montado. Antes de ser montado preciso tirar tudo do móvel antigo, separar, organizar, desmontar, pintar a paredes, trocar o piso. Era para eu ter feito uma boa parte disso durante o mês de outubro, mas entrei nessa de ficar paralisada…

E agora tenho hóspede em casa, caixas saindo pelo ladrão, viagem marcada no fim de semana, a vida dos outros pra ajudar a organizar e falta de tempo pra organizar a minha. Mas vamos seguindo em frente, nada que 30 dias e dois feriados não ajudem a resolver.