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Você sabe perdoar?

Me diz aí, você, pessoa inteligente, formada, pós-graduada, fala mais de uma língua, é um ótimo profissional, amigo, pai, mãe, irmã(o). Ou você nem é nada disso, mas é uma pessoa de bem que vive sua vidinha sem desejar o mal de ninguém. Você sabe perdoar?

Eu sei que a gente tem uma tendência a dizer logo de cara: sim, eu sei. Mas será que aceitar as desculpas de alguém que pisou no seu calo com uma coisinha bem simples do dia a dia é saber perdoar? Não, gente, não é. E você só sabe o peso que é perdoar alguém quando você leva uma grande rasteira na vida, quando alguém está envolvido em uma ação que tira o seu chão, desnorteia o seu pensamento. Aí sim você terá que pensar sobre o que é perdoar e vai perceber que não é nada fácil.

Não é fácil, primeiramente, esquecer a mágoa, o rancor e a raiva. Esse é o primeiro passo. Uma grande amiga minha diz que, na opinião dela, quando alguém pisa na bola com você, ele tem que ser o primeiro a saber. Ela desopila a cabeça dizendo pro infeliz que a magoou exatamente como ela se sente porque ela acha que quem tem que guardar o sentimento ruim é quem te fez mal e não você. Faz um certo sentido. Mas também não é fácil agir assim.

Eu estou treinando. Treinando para mandar de volta os sentimentos ruim, assim como a minha amiga faz e treinando para perdoar com sinceridade aqueles que por algum motivo tiraram meu chão.

Sobre mim

Eu comecei esse blog tocando em alguns assuntos ácidos. Pode ter parecido forte demais escrever com tanta riqueza de detalhes. Mas foi preciso. Eu estou passando por uma fase turbulenta da vida, estou cheia de mágoa, me sentindo injustiçada, pisoteada, confusa, fudida. Eu precisava colocar para fora esses sentimentos, compartilhá-los para então expurgá-los. Foi com esse objetivo que o blog nasceu.

Pouco a pouco estou encaminhando o link para amigos, conhecidos e desconhecidos e me dei conta de que existem muitas coisas que estão escritas aqui que muita gente do meu convívio não sabia. Sei que uma porção de gente vai ler e vai pensar: “mas eu nunca soube que ela estava tentando engravidar há tanto tempo assim… achei que tinha sido um acidente.” E acredito que elas vão se sentir magoadas e enganadas por nunca terem ouvido essas coisas da minha própria boca.

Por que eu agi dessa maneira? Porque eu tive medo. Porque eu tenho medo. Medo de ser julgada, de ser criticada, de ser alvo dos comentários nas rodinhas, de ser questionada. Então eu prefiro não falar, prefiro observar a vida com um ar meio blasé de quem não se importa realmente com o que está acontecendo, como se fosse alheia ao que todo mundo quer. Era uma maneira de me proteger, de dizer que eu não tinha sido atingida, que “nem doeu tanto assim” e que eu ia seguir em frente como sempre.

Foi dessa maneira que eu encarei muitas passagens difíceis na minha vida. Quando a minha mãe morreu, voltei ao trabalho e não chorei no escritório, não surtei para todo mundo ver. Alguns disseram que eu era muito forte, outros disseram que era estranho estar recuperada dessa perda assim tão rápido. Ninguém me viu chorar durante as noites de insônia, na hora do banho, diante do computador, sozinha em casa.

Quando fiquei grávida, não me despi da roupa de mulher e profissional para vestir a de mãe. Não resumi as minhas conversas a esse único assunto e mais uma vez fui mal interpretada. Era estranho aos olhos dos outros que a minha vida agora não se resumisse somente a isso. E quando a gravidez foi interrompida, tive que escutar um conforto nada humano de uma pessoa que me disse que “talvez tivesse sido melhor assim, talvez fosse pra acontecer num outro momento em que eu estivesse mais aberta a essa situação”. É eu não dou sorte com conselhos.

Quando eu fazia terapia, a Beatriz cansou de me dizer que o meu lado racional era ótimo. Racionalizar era comigo mesmo. Ser objetiva, definir o que era bom e o que era ruim para mim e simplesmente executar essas tarefas. E o sentimento? Ah, aí começava a complicar. Era difícil demais dizer para as pessoas o quanto elas eram importantes para mim, assumir que eu estava perdida, pedir colo, ajuda, assumir que eu estava morrendo de pena de mim mesma e que precisava de uma mão amiga.

Desde cedo eu entendi que pra vencer eu tinha que ser forte, que mulheres já estão em desvantagem só por serem o que são: o sexo frágil. E entendi que a gente não tem o direito de fraquejar ou seremos lembradas disso o tempo todo. Que mundo injusto que eu construí para mim. Por isso fui encarando a vida dessa maneira, escondendo as minhas fraquezas e os meus sentimentos nessa pose blasé que fez com que todos pensassem em mim como uma pessoa fria e não auto-controlada.

Perdoem-me. Por não ter compartilhado com todos as minhas vontades, as minhas fraquezas, os meus momentos de queda. Estou fazendo isso agora e espero que não seja tarde demais. Espero que vocês passem a ter de mim uma visão mais humana com o que existe de mais humano nas pessoas: as fraquezas. Eu não deixei de dizer essas coisas por falta de confiançaem vocês ou de consideração, mas por medo de ser questionada e julgada. E porque achei, mais uma vez, que eu ia dar conta de segurar essa barra sozinha. Já percebi que não dá.