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Fazia tempo…

Fazia tempo que eu não ouvia coisas tão fora de propósito como aquelas que eu ouvi recentemente.

Fazia tempo que eu não ouvia alguém do meu convívio dizer, com um sorrisinho irônico no rosto, que o problema da violência em Curitiba é por causa dos paulistas e cariocas. E ainda pedir desculpas depois dizendo que não tem nada contra mim, paulista.

Fazia tempo que eu não via uma criança apontar para um rapaz e cochichar horrorizado no meu ouvido “Olha, ele é bicha!” Aliás, fazia tempo que eu não ouvia alguém dizer isso de outra pessoa, não assim de maneira tão séria.

Fazia tempo que eu não ouvia uma pessoa dizer que prefere ver a filha separada do que mãe solteira. E que quem mora junto não é casado, vive em pecado.

Fazia tempo que eu não sentia o preconceito entre os que me rodeiam e com quem eu convivo diariamente. E isso me chocou. E me fez refletir e entender que é por isso que essas pessoas jamais serão realmente próximas de mim.

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Sobre mim, a adoção e outras coisas

Existe uma coisa muito forte em mim que já me rendeu algumas dores de cabeça pela vida afora. Eu defendo muito as minhas crenças. Isso não quer dizer que eu sou a dona da verdade ou que eu tente “catequizar” as pessoas à minha volta. Deuzulivre, faço isso não. Opinião é que nem bunda, cada um tem a sua e cuida como pode. Mas eu sou uma grande defensora das minhas crenças, mesmo que seja só lá dentro da minha cabeça. E apesar de saber que todo mundo tem direito a uma opinião, mesmo que ela seja diferente da minha, eu sofro um bocado ao topar com comentários não muito favoráveis sobre certos assuntos.

Sendo mais específica, eu fico doente quando topo com pessoas abertamente preconceituosas. Eu sei que todo mundo é preconceituoso lá dentro do seu íntimo, sei que muita gente se diz sem preconceitos, mas acaba traindo o próprio discurso em várias situações… Mas fico doente mesmo quando alguém é cristalinamente preconceituoso na minha frente. Fico doente porque não sei como agir. Dependendo do meu grau de intimidade, eu passo um sermão. Às vezes só digo que não concordo, mas geralmente esse tipo de situação acontece com pessoas que tenho pouca relação (graças a Deus!) e daí fico ali escutando barbaridades, sem concordar e nem discordar.

Ontem fui fazer o meu exame demissional. É, meu povo, estou mudando de emprego, vale fazer um post sobre isso logo mais. E daí que topei com um médico muito do simpático, todo gente boa, todo cheio de sorrisos. Lá pelas tantas ele começou a fazer aquelas perguntas de praxe, cirurgias, doenças, gravidez… E como eu já disse outras vezes por aqui, esse assunto agora é mamão com açúcar pra mim. Digo logo pelas coisas que passei e sobre a fila da adoção. O médico fez uma pausa, uma careta, continuou fazendo anotações, levantou os olhos e disse que ele não tinha perfil pra isso não. Não tinha perfil em primeiro lugar porque tinha um caso de adoção na família e o tal parente resolveu adotar “um pretinho”. E que isso já não era bom, afinal de contas, quando se anda na rua com a criança fica óbvio que não é seu filho. E depois, pra piorar tudo o menino cresceu e virou gay! Veja só que coisa horrorosa!!

Gente, nem eu mesma consigo imaginar a cara que eu devo ter feito diante daquele médico. Só consegui terminar a consulta, pegar o tal atestado e sair de lá voando. Quando contei para o marido, ele ficou mais indignado que eu. E me corrói por dentro pensar que existem muitas outras pessoas que pensam assim sobre os negros, os homossexuais, sobre filhos adotivos. E como é que pode alguém falar assim dessa maneira tão tranquila sem saber que ali do outro lado da mesa tinha um ser humano que prefere viver sem preconceitos, que tem (muitos) amigos gays e familiares negros e que está doida pra ter um filho por adoção qualquer que seja a cor da pele dele.

Até esse momento eu só tinha recebido mensagens positivas e encorajamento quando falava sobre adoção. E, apesar de eu achar que o mundo tem mudado muito e de ter esperanças de que os seres humanos também estão evoluindo, caiu a minha ficha de que existe muito preconceito por aí. E esse preconceito vai me atingir a vida toda se o meu filho for negro ou se ele for gay. Tenho que me preparar para isso. Mas por hora a única coisa que posso pensar é que eu tenho que preparar o meu filho para ser diferente, para ser uma pessoa melhor.

Esses últimos dias a caixa de pandora se abriu e todos os males do mundo foram libertos perto de mim. Livrai-me disso tudo.

Sou paulistana e não desisto nunca!

Outro dia eu li em um blog (desculpe, mas não me lembro qual) o desabafo de um paulistano que mora na Bahia e que ficou abismado como nós, os paulistanos, somos odiados pelo país afora. Até aquele momento, eu achava que isso só acontecia comigo, aqui em Curitiba, a capital das pessoas preconceituosas e arrogantes. Mas terminei o artigo com a mesma dúvida existencial que o meu conterrâneo: por que diabos isso acontece?

Talvez porque exista uma minoria rica, babaca e arrogante da elite paulistana que compra pacotes turísticos caríssimos e viaja por esse Brasilzão esbanjando falta de educação? Talvez…

Mas o que me espanta mais e o que me deixa mais chateada com essa malhação do Judas sobre nós é que se deixa de falar em pessoas, em moral, em amizade para se falar em grupos e pior, se hostilizar os grupos diferentes dos seus. Na minha concepção uma pessoa é chata, mal educada e sem noção pura e simplesmente por uma questão de índole e isso não tem nada a ver com o local de onde ela veio.

E o que é ser paulistano? Por que é tão difícil para quem nunca viveu lá entender a multiplicidade daquela cidade e do seu povo? Porque São Paulo é uma torre de babel e a cidade tem um ritmo peculiar, uma urgência de acontecer, de chegar, de fazer. São extremos convivendo lado a lado, a favela do lado da mansão, o mendigo dormindo embaixo da ponte ao lado do restaurante caríssimo da moda. Dificlmente você vai chegar num grupo em São Paulo, vai dizer que é de Quixeramobim ou coisa parecida e vai ser hostilizado por causa disso. As pessoas ficarão curiosas a seu respeito, vão perguntar como era a sua vida, o que você está fazendo ali, se gosta da cidade, vão até tirar um sarro de alguma peculiaridade da sua origem, isso é muito normal em qualquer lugar do mundo. Mas ninguém vai te banir da rodinha, ninguém vai ferir as suas origens dizendo que odeiam o lugar de onde você veio e que você é bem daquele tipinho mesmo: se acha melhor que todo mundo.

É por isso que me sinto muito ferida quando escuto essas coisas: porque eu nunca fiz isso com ninguém e sei que nunca vou fazer. Porque me sinto tão desrespeitada quanto um negrou ou um homossexual que escuta piadinhas de mal gosto sobre a sua cor ou opção sexual. E mais ainda, porque eu escuto esses comentários de pessoas que convivem comigo há anos, que me conhecem, e com quem eu pensava que tinha alguma relação de amizade. Como alguém que me conhece há anos, pode virar para mim e dizer que eu sou bem paulistana mesmo, me acho melhor que todo mundo. Isso beira a falta de inteligência, é o senso comum vencendo o raciocínio lógico, é o preconceito arraigado nas entranhas desse povo. E isso é triste, muito triste. Mas não tem nada, não. Eu sou paulistana, com muito orgulho, e não desisto nunca.